Quando Deus já nos deu mais do que aquilo que ainda estamos pedindo
“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo.”
Efésios 1:3
Existe algo quase desconcertante nesse versículo.
Paulo não escreve:
“Deus talvez abençoe vocês.”
Nem:
“Deus os abençoará quando tudo der certo.”
Muito menos:
“Deus os abençoará quando vocês tiverem dinheiro, saúde, reconhecimento, estabilidade e sucesso.”
Ele escreve:
“Nos tem abençoado.”
O verbo aponta para uma realidade já concedida.
E talvez esse seja um dos maiores conflitos da espiritualidade contemporânea: continuamos esperando Deus começar a nos abençoar enquanto Paulo afirma que, em Cristo, Deus já começou pela abundância.
O problema talvez não seja ausência de bênção.
Talvez seja nossa definição de bênção.
Quando a bênção virou sinônimo de conforto
Pergunte a alguém:
— Deus tem abençoado você?
Dependendo da resposta, provavelmente aparecerão coisas como:
“Consegui um emprego.”
“Comprei uma casa.”
“Minha empresa cresceu.”
“Fui curado.”
“Meu filho passou na faculdade.”
“Deu tudo certo.”
E todas essas coisas podem, de fato, ser presentes da providência de Deus.
O problema surge quando fazemos o movimento inverso:
Se consegui, Deus me abençoou.
Se perdi, Deus me abandonou.
Se prospero, Deus está comigo.
Se sofro, alguma coisa está errada.
Assim, sem perceber, transformamos Deus em uma espécie de administrador celestial de circunstâncias favoráveis.
Mas Paulo escreveu Efésios provavelmente em contexto de prisão.
E o homem preso escreve sobre alguém que possui “toda sorte de bênção”.
Isso deveria nos incomodar.
Porque significa que existem bênçãos que grades não conseguem impedir.
Há riquezas que crises econômicas não conseguem desvalorizar.
Há uma prosperidade que nenhum diagnóstico consegue cancelar.
Há uma herança que nenhum ladrão pode roubar.
Há uma condição espiritual que não oscila com o saldo da conta bancária.
Paulo descobriu algo que nossa cultura frequentemente esquece:
uma vida difícil não é necessariamente uma vida pouco abençoada.
O endereço da bênção
Efésios 1:3 contém uma expressão decisiva:
“em Cristo.”
Essa talvez seja a chave de todo o texto.
Paulo não está dizendo simplesmente que Deus distribui bênçãos.
Ele está dizendo que existe um lugar espiritual no qual essas bênçãos são encontradas:
Cristo.
O centro do evangelho não é aquilo que recebemos de Cristo.
É Cristo.
Por isso, talvez uma das perguntas mais reveladoras da fé seja:
Se Deus lhe desse Cristo, mas retirasse algumas das coisas que você chama de bênção, Cristo ainda seria suficiente?
Essa pergunta desmonta muita religiosidade.
Porque podemos desejar:
Cristo + saúde.
Cristo + estabilidade.
Cristo + dinheiro.
Cristo + casamento.
Cristo + reconhecimento.
Cristo + sucesso.
Cristo + respostas.
Mas Paulo apresenta algo mais radical:
Cristo é a própria esfera da bênção.
Não recebemos simplesmente presentes provenientes de Deus.
Recebemos relacionamento com o próprio Deus por meio do Filho.
O catálogo que quase nunca colocamos no testemunho
Basta continuar lendo Efésios 1.
Paulo começa a explicar o que significa “toda sorte de bênção espiritual”.
E a lista é impressionante.
Fomos escolhidos
“Assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo.”
Efésios 1:4
Antes que você tivesse currículo, reputação, resultados ou fracassos, Deus já conhecia sua história.
A identidade cristã não começa com desempenho.
Começa com graça.
Fomos adotados
“Nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo.”
Efésios 1:5
O evangelho não oferece simplesmente perdão judicial.
Oferece família.
Deus não apenas cancela nossa culpa.
Ele nos chama de filhos.
Talvez alguém não tenha conseguido conquistar o lugar que desejava neste mundo, mas, em Cristo, recebeu um lugar à mesa do Pai.
Isso é bênção.
Fomos redimidos
“No qual temos a redenção, pelo seu sangue.”
Efésios 1:7
O mundo moderno possui inúmeras formas de escravidão sem correntes visíveis.
Aprovação.
Comparação.
Status.
Dinheiro.
Prazer.
Imagem.
Performance.
Seguidores.
Mas Cristo entrou no mercado de nossas escravidões e pagou aquilo que jamais conseguiríamos pagar.
Redenção significa:
você não pertence mais ao antigo senhor.
Fomos perdoados
“A remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça.”
Efésios 1:7
Talvez uma das maiores bênçãos não seja Deus lhe dar algo novo.
Talvez seja Deus não lhe cobrar aquilo que você jamais poderia pagar.
Perdão significa que nosso pior momento não precisa ser nossa identidade definitiva.
A cruz declara que pecado é sério demais para ser ignorado, mas a graça é poderosa demais para deixar o pecador sem esperança.
Recebemos uma herança
“Nele, digo, no qual fomos também feitos herança.”
Efésios 1:11
Vivemos acumulando coisas que inevitavelmente teremos de deixar.
Casas.
Dinheiro.
Empresas.
Títulos.
Objetos.
Patrimônio.
Reputação.
Mas o evangelho apresenta uma herança que funciona na direção contrária:
não somos nós que a deixaremos.
É ela que nos espera.
Pedro chama isso de:
“Uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus.”
1 Pedro 1:4
A maior fortuna cristã permanece fora do alcance da inflação, da corrupção e da morte.
Fomos selados pelo Espírito
“Tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa.”
Efésios 1:13
A presença do Espírito é mais que sensação religiosa.
É sinal de pertencimento.
É garantia.
É antecipação do futuro.
O Espírito Santo não é um acessório da experiência cristã.
É Deus habitando em seu povo.
E talvez tenhamos cometido uma inversão estranha:
celebramos intensamente quando Deus coloca algo em nossas mãos, mas pouco celebramos o fato de que Deus colocou seu Espírito dentro de nós.
A bênção que ninguém posta
Existe um tipo de bênção que funciona muito bem nas redes sociais.
A chave do apartamento.
O carro.
A viagem.
A promoção.
O casamento.
A conquista.
Nada necessariamente errado nisso.
Mas existem outras bênçãos difíceis de fotografar.
Paciência desenvolvida no sofrimento.
Humildade produzida depois de uma queda.
Libertação secreta de um pecado antigo.
Capacidade de perdoar alguém.
Coragem para dizer não.
Discernimento para abandonar uma oportunidade.
Paz quando a resposta não veio.
Contentamento quando o dinheiro diminuiu.
Fidelidade quando ninguém estava olhando.
Essas coisas talvez não rendam muitos aplausos.
Mas o céu reconhece seu valor.
Talvez Deus esteja abençoando você pela perda
Essa é uma das possibilidades que menos gostamos de considerar.
Nem toda bênção chega adicionando.
Algumas chegam removendo.
Jesus disse:
“Todo ramo que dá fruto, limpa, para que produza mais fruto ainda.”
João 15:2
Há momentos em que Deus abençoa acrescentando.
Em outros, podando.
Às vezes Ele abre uma porta.
Em outras ocasiões, sua misericórdia aparece justamente quando a porta permanece fechada.
Há relacionamentos cuja perda nos preservou.
Ambições cuja frustração nos amadureceu.
Projetos cujo fracasso expôs nossa idolatria.
Momentos de escassez que revelaram onde realmente estava nossa confiança.
Até Paulo descobriu que uma oração não atendida poderia esconder uma graça maior:
“A minha graça te basta.”
2 Coríntios 12:9
O espinho permaneceu.
A graça também.
E Paulo aprendeu que graça suficiente pode ser uma bênção maior que alívio imediato.
O evangelho não promete imunidade
Existe uma versão popular da fé que funciona assim:
Quanto mais perto de Deus, menos problemas.
A Bíblia não confirma isso.
José foi fiel e foi preso.
Jeremias obedeceu e foi rejeitado.
Daniel permaneceu íntegro e foi lançado aos leões.
Paulo pregou Cristo e recebeu açoites.
Os apóstolos obedeceram e enfrentaram perseguição.
Jesus foi perfeitamente obediente e terminou numa cruz.
Portanto, sofrimento não pode ser automaticamente interpretado como ausência da bênção de Deus.
Algumas vezes, pessoas profundamente abençoadas atravessam circunstâncias profundamente dolorosas.
Habacuque conseguiu dizer:
“Ainda que a figueira não floresça… todavia, eu me alegro no Senhor.”
Habacuque 3:17-18
Observe.
Ele não chama a escassez de abundância.
Não nega a realidade.
A figueira realmente não floresceu.
O campo realmente não produziu.
O rebanho realmente desapareceu.
Mas uma coisa permaneceu:
Deus.
E quando Deus permanece, a história ainda não terminou em pobreza.
O perigo de possuir bênçãos sem desfrutar do Abençoador
Talvez seja possível receber muitos presentes de Deus e, ainda assim, viver distante de Deus.
Israel experimentou isso repetidamente.
Recebia provisão e esquecia o Provedor.
Recebia terra e esquecia o Senhor.
Recebia colheita e construía ídolos.
Por isso Moisés advertiu:
“Guarda-te, para não suceder que… se eleve o teu coração e te esqueças do Senhor.”
Deuteronômio 8:11-14
Existe algo mais perigoso que não receber aquilo que queremos.
É receber e concluir que já não precisamos de Deus.
Uma bênção mal interpretada pode tornar-se ídolo.
Dinheiro pode ser provisão ou senhor.
Carreira pode ser vocação ou identidade.
Relacionamento pode ser dádiva ou divindade.
Sucesso pode ser oportunidade ou altar.
A pergunta não é apenas:
“O que Deus colocou em minhas mãos?”
Mas:
“O que aquilo que está em minhas mãos está fazendo com meu coração?”
O cristão não é alguém tentando convencer Deus a ser generoso
Efésios 1 muda também nossa maneira de orar.
Muitas vezes nos aproximamos de Deus como mendigos tentando persuadir um Pai relutante.
Mas Paulo apresenta outra imagem.
O Deus do evangelho já demonstrou sua generosidade em Cristo.
Romanos pergunta:
“Aquele que não poupou o seu próprio Filho… porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?”
Romanos 8:32
A cruz encerrou definitivamente a discussão sobre a disposição de Deus em dar.
Isso não significa que receberemos tudo o que desejamos.
Significa algo muito maior:
não precisamos medir o amor de Deus pelas circunstâncias desta semana.
O Calvário já estabeleceu a medida.
A verdadeira pobreza espiritual
Talvez a maior pobreza seja possuir tudo e não saber quem somos.
Ter recursos e nenhuma paz.
Seguidores e nenhuma comunhão.
Informação e nenhuma sabedoria.
Opções e nenhuma direção.
Liberdade e nenhum propósito.
Sucesso e nenhuma eternidade.
Jesus advertiu uma igreja que dizia:
“Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma.”
Mas Cristo respondeu:
“Nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.”
Apocalipse 3:17
É possível ser economicamente rico e espiritualmente falido.
Também é possível atravessar escassez e possuir riquezas que o mundo jamais conseguirá contabilizar.
E se já estivermos mais abençoados do que percebemos?
Talvez você esteja pedindo uma mudança de circunstâncias.
E não há problema nisso.
Ore.
Peça.
Chore.
Apresente seus desejos ao Pai.
Mas, enquanto espera, não deixe sua alma concluir:
“Deus ainda não me abençoou.”
Olhe novamente para Efésios.
Você foi alcançado pela graça.
Escolhido em Cristo.
Adotado pelo Pai.
Redimido pelo sangue.
Perdoado.
Inserido no povo de Deus.
Feito herdeiro.
Selado pelo Espírito.
Recebeu esperança.
Recebeu acesso ao Pai.
Recebeu uma nova identidade.
Recebeu uma nova história.
Recebeu um futuro que a morte não consegue destruir.
Então talvez nossa oração precise mudar.
Em vez de apenas:
“Senhor, abençoa minha vida.”
Talvez precisemos aprender a dizer:
“Senhor, abre meus olhos para compreender a vida abençoada que já recebi em Cristo.”
Paulo, aliás, fez exatamente essa oração:
“Iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos.”
Efésios 1:18
Perceba:
Paulo não pede inicialmente mais bênçãos.
Pede olhos para enxergar as que já existem.
A pergunta final
Talvez nossa geração tenha aprendido a perguntar:
“O que está faltando na minha vida?”
Efésios nos convida a fazer outra pergunta:
“O que já possuo porque estou em Cristo?”
Essa mudança parece pequena.
Mas pode transformar completamente nossa espiritualidade.
Porque alguém que vive apenas olhando para aquilo que falta será permanentemente pobre.
Mesmo possuindo muito.
Mas aquele que começa a compreender o que recebeu em Cristo poderá dizer, mesmo atravessando perdas:
Ainda tenho o que realmente importa.
Toda sorte de bênção não significa que tudo dará certo segundo nossos planos.
Significa que, em Cristo, Deus já nos concedeu aquilo que nenhuma circunstância poderá finalmente retirar.
Talvez você ainda não tenha recebido aquilo que tanto pediu.
Talvez algumas portas continuem fechadas.
Talvez existam perguntas sem resposta.
Talvez sua vida esteja muito distante daquilo que você imaginou.
Mas, se você está em Cristo, não interprete a espera como abandono.
Não confunda escassez circunstancial com pobreza espiritual.
Não permita que aquilo que ainda não chegou faça você esquecer aquilo que já foi dado.
Porque antes de responder todas as suas perguntas, Deus lhe deu Cristo.
Antes de resolver todas as suas circunstâncias, Deus lhe deu graça.
Antes de transformar seu mundo ao redor, Deus começou a transformar você.
E talvez seja justamente isso que Paulo chama de:
“Toda sorte de bênção.”