Fé Examinada

Quando a maior ameaça à fé não é abandoná-la, mas presumir que ainda a possuímos

“Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé; provai-vos a vós mesmos.”
— 2 Coríntios 13:5

Existe uma pergunta que o cristianismo contemporâneo faz com frequência:

“Você acredita em Deus?”

Paulo faz uma pergunta muito mais desconfortável:

“Aquilo que você chama de fé sobreviveria a um exame?”

Há uma diferença enorme entre possuir uma linguagem cristã e possuir uma fé viva. Entre conhecer o vocabulário do evangelho e estar sendo transformado por ele. Entre frequentar ambientes onde Cristo é anunciado e realmente permitir que Cristo governe aquilo que ninguém vê.

Talvez uma das maiores ameaças espirituais do nosso tempo não seja o ateísmo.

Talvez seja a fé presumida.

Aquela fé que nunca mais se pergunta se continua sendo fé.


O cristão que nunca se examina

Curiosamente, Paulo escreve “examinai-vos” para pessoas que estavam ocupadas examinando outra pessoa.

Os coríntios questionavam o próprio Paulo. Queriam provas de sua autoridade e da atuação de Cristo por meio dele:

“Visto que buscais uma prova de Cristo que fala em mim…”
— 2 Coríntios 13:3

A resposta de Paulo é quase uma inversão do tribunal:

Vocês querem me colocar à prova? Comecem examinando vocês mesmos.

Essa perspectiva torna 2 Coríntios 13:5 ainda mais provocativa.

Porque existe uma forma sofisticada de fugir da própria condição espiritual:

transformar a vida dos outros em nosso objeto permanente de análise.

Examinamos pregadores.

Examinamos igrejas.

Examinamos denominações.

Examinamos políticos.

Examinamos teólogos.

Examinamos quem está “certo” e quem está “errado”.

Enquanto isso, podemos atravessar anos sem fazer a pergunta mais perigosa:

O que está acontecendo dentro de mim?

É possível possuir excelente discernimento sobre os erros dos outros e quase nenhum discernimento sobre o próprio coração.

Jesus já havia advertido:

“Tira primeiro a trave do teu olho.”
— Mateus 7:5

Antes de transformar o mundo em tribunal, o evangelho coloca um espelho diante de nós.


O perigo da fé automática

Há coisas que fazemos tantas vezes que deixam de exigir nossa atenção.

Dirigimos certos trajetos quase automaticamente.

Digitamos senhas sem pensar.

Executamos rotinas mecanicamente.

O mesmo pode acontecer com a religião.

Oramos automaticamente.

Cantamos automaticamente.

Dizemos “amém” automaticamente.

Participamos da igreja automaticamente.

Compartilhamos versículos automaticamente.

Podemos até falar sobre Jesus automaticamente.

E esse talvez seja um dos estados espirituais mais perigosos:

quando nossa vida cristã continua funcionando externamente depois que nosso coração começou a se afastar internamente.

Sansão experimentou algo semelhante.

Quando Dalila chamou:

“Os filisteus vêm sobre ti, Sansão!”

ele respondeu como sempre havia respondido:

“Sairei ainda esta vez como dantes e me livrarei.”

Então aparece uma das frases mais assustadoras do Antigo Testamento:

“Porque ele não sabia ainda que já o Senhor se tinha retirado dele.”
— Juízes 16:20

Sansão acreditava que tudo continuava igual.

Esse é o problema da deterioração espiritual: frequentemente ela acontece antes que percebamos.

Por isso Paulo não diz apenas:

“Creiam.”

Ele diz:

“Examinem-se.”


O exame não pergunta apenas no que você acredita

Frequentemente reduzimos a fé a concordar com algumas afirmações.

Creio em Deus.

Creio em Jesus.

Creio na Bíblia.

Creio na ressurreição.

Tudo isso é essencial.

Mas Tiago lembra:

“Também os demônios creem e tremem.”
— Tiago 2:19

A questão, portanto, não é somente:

“Quais doutrinas você afirma?”

Mas:

“Que tipo de pessoa essas doutrinas estão produzindo?”

A fé bíblica possui conteúdo.

Mas também possui consequências.

Ela produz arrependimento.

Ela reorganiza prioridades.

Ela confronta ídolos.

Ela altera relacionamentos.

Ela produz frutos.

Não perfeitamente.

Não instantaneamente.

Mas inevitavelmente.

Jesus disse:

“Pelos seus frutos os conhecereis.”
— Mateus 7:20

Talvez o exame espiritual precise perguntar menos:

“Quantos versículos conheço?”

e mais:

“Quantas áreas da minha vida realmente estão debaixo desses versículos?”


Há pecados que aprendemos a chamar de personalidade

O exame espiritual se torna particularmente difícil porque temos extraordinária capacidade de renomear nossos pecados.

Chamamos orgulho de personalidade forte.

Chamamos controle de responsabilidade.

Chamamos ansiedade de preocupação necessária.

Chamamos avareza de prudência financeira.

Chamamos ressentimento de memória.

Chamamos covardia de sabedoria.

Chamamos vaidade de excelência.

Chamamos fofoca de pedido de oração.

Chamamos falta de perdão de estabelecer limites.

Nem toda prudência é avareza.

Nem todo limite é falta de perdão.

Nem toda firmeza é orgulho.

Mas exatamente por isso precisamos do exame.

Porque nosso coração é extraordinariamente habilidoso em construir argumentos para proteger aquilo que não deseja entregar.

Jeremias escreveu:

“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas.”
— Jeremias 17:9

O problema não é apenas que podemos enganar os outros.

Podemos convencer a nós mesmos.


Autoexame não é autoacusação

Aqui precisamos evitar outro extremo.

Algumas pessoas leem “examinai-vos” como se Paulo estivesse ensinando:

“Suspeitem permanentemente da salvação de vocês.”

Mas o evangelho não pretende produzir cristãos espiritualmente paranoicos.

Autoexame não significa viver diariamente tentando descobrir uma razão para Deus nos rejeitar.

Se nossa esperança estivesse baseada na ausência de falhas, ninguém sobreviveria ao exame.

João escreve:

“Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos.”
— 1 João 1:8

O objetivo do exame não é encontrar perfeição.

É encontrar realidade.

Existe arrependimento?

Existe fome por Deus?

Existe guerra contra o pecado?

Existe desejo de obedecer?

Existe amor crescente por Cristo?

Existe fruto, ainda que pequeno?

Existe correção quando somos confrontados?

Existe tristeza por ofender a Deus?

Existe dependência da graça?

Um coração regenerado pode tropeçar.

Pode cair.

Pode atravessar desertos.

Pode lutar com dúvidas.

Mas existe algo nele que continua sendo atraído novamente para Cristo.

A questão não é:

“Você nunca cai?”

A questão é:

“Para onde você corre quando cai?”


Cristo está em você?

Paulo continua:

“Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós?”
— 2 Coríntios 13:5

Aqui está o centro do exame.

Não é simplesmente avaliar nossa força de vontade.

Não é medir nossa performance religiosa.

Não é construir uma planilha espiritual.

O cristianismo não começa com:

“Sou suficientemente bom?”

Começa com:

“Cristo está em mim?”

Essa mudança altera tudo.

Porque uma pessoa pode disciplinar comportamento sem possuir Cristo.

Pode construir reputação cristã sem possuir Cristo.

Pode adquirir conhecimento teológico sem possuir Cristo.

Pode desenvolver uma imagem pública piedosa sem possuir Cristo.

Pode participar da estrutura da igreja sem possuir Cristo.

Jesus pronunciou uma das advertências mais desconcertantes das Escrituras:

“Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome…?”

E sua resposta foi:

“Nunca vos conheci.”
— Mateus 7:22-23

Observe:

o problema dessas pessoas não era ausência de atividade religiosa.

Era ausência de relacionamento verdadeiro com Cristo.

Há uma diferença entre usar o nome de Jesus e pertencer a Jesus.


O algoritmo conhece sua fé pública. Deus conhece sua fé privada.

Vivemos numa época em que espiritualidade também pode ser performada.

Uma frase bíblica pode virar legenda.

Uma oração pode virar conteúdo.

Um culto pode virar cenário.

Uma experiência espiritual pode virar postagem.

Nada disso é necessariamente errado.

O problema começa quando nosso testemunho público cresce mais rapidamente que nossa vida secreta com Deus.

O algoritmo conhece aquilo que mostramos.

Deus conhece aquilo que somos quando ninguém está olhando.

E talvez algumas das perguntas mais importantes do autoexame sejam:

Quem sou quando não existe plateia?

Como trato minha família?

O que faço quando sou contrariado?

Como reajo quando ninguém me reconhece?

O que acontece quando alguém ocupa o lugar que eu desejava?

O que alimento silenciosamente na imaginação?

O que faria se tivesse certeza absoluta de que ninguém descobriria?

Porque caráter não é aquilo que conseguimos apresentar diante dos outros.

Caráter é aquilo que permanece quando a audiência desaparece.


Examine também aquilo que está funcionando

Há ainda um detalhe pouco discutido.

Costumamos fazer autoexame quando algo dá errado.

Quando caímos.

Quando sofremos.

Quando um relacionamento quebra.

Quando o ministério entra em crise.

Mas talvez devêssemos nos examinar principalmente quando tudo está funcionando.

Porque fracassos revelam algumas coisas.

Sucessos revelam outras ainda mais profundas.

Quando algo prospera, examine:

Estou me tornando mais agradecido ou mais arrogante?

Quando sou elogiado:

Estou glorificando Deus ou secretamente construindo um trono?

Quando crescem meus recursos:

Estou me tornando mais generoso ou apenas aumentando minhas necessidades?

Quando minha influência aumenta:

Estou servindo mais pessoas ou exigindo mais reconhecimento?

Moisés advertiu Israel justamente sobre isso.

O perigo não estaria apenas no deserto.

Estaria na abundância:

“Guarda-te não te esqueças do Senhor.”
— Deuteronômio 8:11

Talvez prosperidade sem autoexame seja espiritualmente mais perigosa que adversidade.

No sofrimento perguntamos:

“Onde está Deus?”

Na prosperidade frequentemente paramos de perguntar qualquer coisa.


Há espelhos que mostram o rosto, mas não mostram a alma

Tiago compara a Palavra de Deus a um espelho:

“Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não praticante, assemelha-se ao homem que contempla, num espelho, o seu rosto natural.”
— Tiago 1:23

A Bíblia não nos foi dada apenas para informar nossa mente.

Ela também foi dada para desmascarar nosso coração.

Por isso existe uma forma perigosa de ler as Escrituras:

ler sempre pensando em outra pessoa.

“Esse versículo serviria para fulano.”

“Essa mensagem é exatamente para aquela pessoa.”

“Alguém precisava ouvir isso.”

Talvez.

Mas antes disso existe uma pergunta:

O que Deus está dizendo a mim?

A maturidade começa quando deixamos de usar a Bíblia como uma janela pela qual analisamos os outros e permitimos que ela funcione como espelho.


Um exame que precisa da presença de Deus

Há algo profundamente belo no Salmo 139.

Depois de falar extensamente sobre como Deus conhece tudo, Davi conclui:

“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno.”
— Salmo 139:23-24

Isso significa que verdadeiro autoexame não acontece sozinho.

Existe um limite para nossa capacidade de enxergar a nós mesmos.

Precisamos convidar Deus para a investigação.

“Sonda-me.”

Não:

“Confirme tudo aquilo que já penso sobre mim.”

Mas:

“Mostra-me o que eu não estou vendo.”

Essa talvez seja uma das orações mais corajosas que alguém pode fazer.

Porque pedir bênçãos a Deus é relativamente confortável.

Pedir que Deus exponha nossos pontos cegos é outra coisa.


Algumas perguntas que talvez precisemos fazer

Não para produzir culpa artificial.

Mas para remover ilusões.

Minha fé continua dependendo de Cristo ou estou dependendo da minha própria reputação espiritual?

Quando fui confrontado pela última vez pela Palavra de Deus?

Existe algum pecado que já parei de combater e comecei a justificar?

Minha vida secreta confirma ou contradiz minha vida pública?

Estou mais impressionado com Jesus hoje ou simplesmente mais acostumado com Ele?

Tenho crescido em amor ou apenas em conhecimento?

As pessoas mais próximas de mim percebem o fruto do evangelho?

Existe alguém que preciso perdoar?

Existe algo que preciso confessar?

Existe uma área na qual continuo dizendo “Senhor”, mas na prática respondo “não”?

E talvez a mais desconfortável:

Se retirássemos da minha vida a igreja, as músicas cristãs, os livros, os cargos, as postagens e o vocabulário religioso — ainda encontraríamos alguém seguindo Jesus?


Não tenha medo do exame

Um médico não solicita exames porque deseja que o paciente esteja doente.

Ele solicita porque algumas doenças precisam ser descobertas antes de se tornarem irreversíveis.

Talvez o autoexame espiritual seja uma forma da graça.

Deus expõe porque deseja curar.

Confronta porque deseja restaurar.

Revela porque deseja libertar.

A graça não apenas perdoa aquilo que confessamos.

Ela ilumina aquilo que ainda não conseguimos enxergar.

Por isso Jeremias diz:

“Esquadrinhemos os nossos caminhos, provemo-los e voltemos para o Senhor.”
— Lamentações 3:40

Perceba o movimento:

examinar.

reconhecer.

voltar.

O destino do autoexame cristão não é o desespero.

É o retorno.


Antes de examinar o mundo

Vivemos em uma era de avaliações.

Avaliamos restaurantes.

Avaliamos produtos.

Avaliamos empresas.

Avaliamos líderes.

Avaliamos governos.

Avaliamos igrejas.

Avaliamos sermões.

Avaliamos pessoas.

Talvez Paulo aparecesse em nosso tempo com uma palavra inconveniente:

Antes de avaliar mais alguém, examine-se.

Não para descobrir se você merece Cristo.

Você nunca mereceu.

Não para provar sua própria justiça.

Ela nunca seria suficiente.

Mas para descobrir se sua vida continua apontando para aquele que um dia você confessou como Senhor.

Porque existe algo pior que descobrir que estamos espiritualmente doentes.

É permanecer doentes acreditando que estamos perfeitamente saudáveis.

A fé verdadeira não teme o exame.

Porque ela sabe que, quando todas as máscaras caírem, sua esperança final não estará em sua performance.

Estará em Cristo.

E talvez a pergunta de 2 Coríntios 13:5 continue ecoando através dos séculos, atravessando nossos cultos, cargos, discursos, reputações e certezas:

Você tem examinado tantas coisas.

Quando foi a última vez que examinou a si mesmo?

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