Oração Retórica

Quando a oração explica o óbvio, mas esconde o essencial

Há orações que parecem profundas porque são longas, detalhadas e cheias de informações. Nelas, explicamos a Deus o que aconteceu, quem fez o quê, como as circunstâncias se desenvolveram e quais consequências poderão surgir.

Contamos a Deus aquilo que Ele viu.

Descrevemos aquilo que Ele conhece.

Relembramos aquilo que jamais saiu de sua memória.

Falamos como se o céu precisasse ser atualizado.

“Senhor, como tu sabes, estamos passando por um momento difícil…”

“Pai, o mundo está cheio de violência…”

“Deus, aquela pessoa está doente…”

“Senhor, a igreja precisa de avivamento…”

Tudo isso pode ser verdadeiro. O problema não está no conteúdo, mas no lugar que ele ocupa. Muitas vezes, gastamos toda a oração narrando o óbvio porque não queremos chegar ao essencial.

Deus sabe que o mundo está em crise.

Mas talvez queira ouvir de nós por que a crise não nos comove mais.

Deus sabe que alguém está doente.

Mas talvez queira revelar nossa dificuldade de confiar nele quando não existe cura imediata.

Deus sabe que a igreja precisa de avivamento.

Mas talvez espere que confessemos que nos acostumamos com a frieza.

A oração pode dizer muitas coisas certas e ainda evitar a verdade.

Deus não precisa de relatório

Jesus declarou:

“Vosso Pai sabe do que necessitais, antes de lho pedirdes.”
Mateus 6.8

Essa afirmação desmonta a ideia de que orar é transmitir informações a Deus.

O Pai já sabe.

Ele conhece o problema antes de nossa explicação, a necessidade antes do pedido e a consequência antes de nossa preocupação. O salmista afirma que, antes mesmo que a palavra chegue à língua, Deus já a conhece completamente.

Deus não precisa de contexto.

Não precisa de introdução.

Não precisa que façamos uma retrospectiva dos acontecimentos.

Isso não significa que não possamos contar a Ele o que estamos vivendo. Os salmos estão cheios de relatos, perguntas, lamentos e memórias. A diferença é que o salmista não narra os fatos para informar Deus, mas para derramar o coração diante dele.

Existe uma enorme distância entre descrever a dor e entregar a dor.

Uma pessoa pode contar detalhadamente tudo o que aconteceu e, ainda assim, não se abrir.

Pode narrar o conflito sem confessar o orgulho.

Pode explicar a injustiça sem reconhecer o desejo de vingança.

Pode pedir mudança nas circunstâncias sem permitir que Deus mude seu coração.

A oração não é um relatório celestial.

É exposição da alma.

O óbvio pode ser uma fuga

Às vezes, oramos o óbvio porque o óbvio é seguro.

É mais fácil dizer: “Senhor, você sabe que a situação é difícil…”

Do que admitir: “Senhor, estou com medo de que não cuidarás de mim.”

É mais confortável afirmar: “Deus,há muitas pessoas necessitadas…”

Do que confessar: “Tenho recursos, mas estou resistente a repartir.”

É mais espiritual dizer: “Pai, transforma aquela pessoa…”

Do que importa: “Não quero perdoá-la.”

É menos doloroso declarar: “Senhor, precisamos de unidade…”

Do que dizer: “Tenho alimentadas divisões porque não aceito perder espaço.”

O óbvio preserva nossa imagem. A verdade nos desnuda.

Podemos usar fatos conhecidos de Deus para preencher o espaço da oração e impedir que o Espírito toque nos lugares que evitamos.

Falamos sobre tudo, exceto sobre nós. Explicamos o cenário, analisamos as pessoas, descrevemos a sociedade, comentamos a igreja e apresentamos soluções. Mas permanecemos escondidos atrás das palavras.

A oração torna-se uma cortina religiosa. Muito conteúdo. Pouca confissão.

A oração que parece palestra

Há momentos em que a oração deixa de ser conversa com Deus e se transforma em explicação teológica.

“Senhor, tu criaste o céu e a terra…”

“Tu és onisciente, onipotente e onipresente…”

“Como vemos nas Escrituras…”

Não há nada errado em afirmar os atributos de Deus. A Bíblia nos ensina a adorar pelo que Ele é.

O problema surge quando falamos dessas verdades como quem apresenta uma aula para Deus — ou para as pessoas que estão ouvindo.

Deus sabe que é Criador. Deus sabe que é soberano. Deus conhece as Escrituras melhor do que nós.

Quando usamos a oração para demonstrar conhecimento, a verdade deixa de conduzir ao espírito e passa a sustentar nossa imagem espiritual.

Nesse momento, Deus se torna o destinatário gramatical de um discurso dirigido à plateia. Dizemos “Senhor”, mas pensamos em quem está escutando. A frase sobe em direção ao céu, porém a intenção continua presa à aprovação humana.

Jesus não ensinou Deus a ser Deus

Na oração ensinada por Jesus, não há tentativa de explicar o mundo ao Pai. “Pai nosso…” “Venha o teu Reino…” “Seja feita a tua vontade…” “Dá-nos o pão…” “Perdoa-nos…” “Livra-nos…”

É uma oração direta. Não existe ornamentação para impressionar. Não há relatório sobre a situação política de Israel, descrição da pobreza da população ou explicação sobre o poder dos ciganos. Jesus vai ao centro.

Quem Deus é. O que desejamos. Do que precisamos. O que devemos confessar. De onde precisamos ser livres. A oração ensinada por Cristo não atualiza Deus sobre a terra. Ela alinha a terra ao céu.

Não tente convencer o Pai de sua responsabilidade. Submeta o coração à sua vontade.

Informar é diferente de confiar

Muitas de nossas orações são longas porque tentamos organizar uma situação diante de Deus antes de confiar nela. Explicamos cada detalhe porque, no fundo, desejamos mostrar a Ele como deveria agir.

“Senhor, aquela pessoa precisa fazer isso…”

“Pai, aquela abre porta dessa maneira…”

“Deus, resolve esse problema por meio daquela pessoa…”

Não estamos apenas apresentando uma necessidade. Estamos entregando a Deus um roteiro.

É como se disséssemos:“Você conhece todas as coisas, mas deixe-me explicar a melhor solução.”

A oração começa como súplica e termina como consultoria.

Falamos da soberania de Deus, mas apresentamos instruções.

Declaramos que Ele sabe tudo, mas sugerimos caminhos que talvez não tenhamos considerado.

Pedimos sua vontade, desde que coincida com a nossa estratégia.

Por isso, repetir o óbvio pode ocultar uma tentativa de controle. Quanto mais descrevemos a situação, mais tentamos conduzir a uma resposta divina.

A fé, porém, não está na quantidade de detalhes descritos. Está na capacidade de dizer: “Pai, tu sabes.” E descansar.

“Tu sabes” pode ser fé ou evasão

A expressão “Senhor, tu sabes” aparece com frequência em nossas orações.

Ela pode ser uma das maiores declarações de confiança. Ou uma das formas mais discretas de fugir da honestidade.

Pedro disse a Jesus: > “Senhor, tu sabes todas as coisas; tu sabes que eu te amo.” > João 21.17 Pedro não usou o conhecimento de Cristo para evitar a verdade.

Ele se entregou a esse conhecimento. Jesus sabia de sua negação. Sabia de sua vergonha. Sabia de seu amor frágil. Sabia que Pedro falharia novamente.

Ao dizer “tu sabes”, Pedro não estava encerrando a conversa. Estava registrando que não podia mais se esconder.

A oração madura não diz “tu sabes” para evitar uma confissão. Diz “tu sabes” porque finalmente aceita ser conhecido.

Ana não fez uma apresentação

Quando Ana entrou no templo, profundamente angustiada, ela não preparou uma exposição sobre infertilidade, cultura familiar ou conflitos domésticos.

Ela derramou a alma diante do Senhor. Seus lábios se moviam, mas sua voz não era ouvida. Eli chegou a interpretar sua oração como embriaguez. Ana respondeu: > “Tenho derramado a minha alma perante o Senhor.” > 1 Samuel 1.15

Essa é a diferença. Há quem derrubou informações. Ana derramou a alma. As informações podem ser organizadas sem vulnerabilidade. A alma, não.

Quem transmite informações permanece no controle da narrativa. Quem derrama a alma admite que já não consegue sustentar a própria aparência. Deus não estava descobrindo a esterilidade de Ana. Ele estava aceitando sua angústia. A oração não informada o céu. Abra o coração.

Deus conhece os fatos, mas deseja relacionamento

Se Deus já sabe tudo, por que orar? Porque oração não é transferência de informação. É comunhão.

Uma mãe pode saber que seu filho está triste, mas ainda deseja que ele se aproxime e fale.

Não porque desconheça seu sofrimento, mas porque o relacionamento exige presença, entrega e confiança.

Deus conhece nossa necessidade, mas deseja que reconheçamos nossa dependência.

Conhece nosso pecado, mas nos chama à confissão.

Conhece nossa dor, mas nos convida a lançar-la sobre Ele.

Conhece nossos desejos, mas quer submetê-los à sua vontade.

Orar não muda o nível de conhecimento de Deus. Muda nossa posição diante dele. De autossuficientes para dependentes. De escondidos para conhecidos.De parâmetros para renderizados. De narradores da vida para participantes da graça.

Menos explicação, mais verdade talvez nossas orações não precisem ser maiores.

Precisamente ser mais honestos.

Em vez de: “Senhor, como tu sabes, estou enfrentando uma situação profissional muito complicada, com muitas questões envolvidas…”

Talvez devêssemos dizer: “Pai, tenho medo de perder minha segurança.”

Em vez de: “Deus, tu conheces o comportamento daquela pessoa e sabes tudo o que ela tem feito…”

Talvez seja necessário confessar: “Estou alimentando ressentimento e desejo que ela sofra.”

Em vez de: “Senhor, sabemos que a igreja precisa cumprir sua missão…”

Talvez a verdade seja: “Eu me acomodei e terceirizei minha responsabilidade.”

Em vez de: “Pai, o mundo está cada vez pior…”

Talvez devêssemos admitir: “Minha esperança está mais nas situações do que no teu Reino.”

O céu não se impressiona com nossa capacidade de diagnosticar o óbvio. Deus procura verdade no íntimo.

O silêncio que ora

Quando entendemos que Deus já sabe, o silêncio deixa de ser vazio.

Posso tornar-se confiança. Nem toda oração precisa explicar.

Nem tudo precisa ser organizado em frases.

Nem toda angústia precisa receber linguagem imediata. Paulo afirma que, em nossas fraquezas, o Espírito intercede por nós com gemidos que não podem ser expressos em palavras.

Há momentos em que a oração mais verdadeira não é: “Senhor, permita-me explicar.”

Mas: “Pai, eu não sei nem como falar.”

O silêncio diante de Deus pode ser mais sincero do que uma sequência de frases usadas para evitar a vulnerabilidade.

Não é ausência de oração. É o reconhecimento de que somos completamente conhecidos.

Pare de explicar o que Deus já viu

Deus estava presente quando aconteceu. Ele ouviu o que estava aqui. Viu o que fez contra você. Conhece o diagnóstico. Sabe quanto dinheiro falta. Conhece a condição de seus filhos. Vê a crise da igreja. Entende a confusão do mundo.

Você não precisa convencê-lo de que o problema é grave. Talvez seja preciso permitir que Ele revele o que esse problema está causando dentro de você.

A pergunta da oração não é apenas: “Deus, estás vendo isso?” Mas: “Deus, o que está vendo em mim enquanto isso acontece?”

A oração deixa de ser óbvia quando deixa de apenas descrever o exterior e permite que Deus examine o interior.

Ele já conhece os acontecimentos. Já conheço as pessoas. Já conhece as causas. Já conhece os resultados possíveis.

O que frequentemente evitamos é a consideração que Ele também nos conhece. Por isso, talvez a oração mais espiritual de hoje não seja longa, sofisticada ou cheia de explicação.

Talvez seja apenas: “Pai, você já sabe de tudo. Agora me mostre a verdade sobre mim.”

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