Quando sabemos pouco demais para perceber o quanto ainda não sabemos
Existe uma fase do conhecimento em que a pessoa ainda não aprendeu o suficiente para desconfiar de si mesma.
Ela conhece algumas respostas, domina algumas palavras, assiste a alguns vídeos, lê alguns livros, participa de algumas discussões e, de repente, sente-se preparada para explicar o mundo, corrigir pessoas, julgar decisões e encerrar debates.
O problema não é apenas saber pouco.
O problema é saber pouco e acreditar que já se sabe muito.
Pessoas com conhecimento limitado em determinada área podem superestimar suas próprias capacidades justamente porque ainda não possuem os instrumentos necessários para reconhecer suas limitações.
Em outras palavras, a ignorância não apenas desconhece. Muitas vezes, ela também desconhece que desconhece.
Muito antes de esse comportamento receber uma definição da psicologia, as Escrituras já advertiam:
“Tens visto um homem que é sábio aos seus próprios olhos? Maior esperança há no insensato do que nele.”
Provérbios 26:12
A Bíblia não trata a autoconfiança desmedida como simples falha intelectual. Ela a apresenta como uma deformação espiritual. Quando alguém se torna sábio aos próprios olhos, deixa de aprender, torna-se resistente à correção e começa a confundir convicção com infalibilidade.
Quando uma janela parece o mundo inteiro
Conhecer um pouco pode ser mais perigoso do que reconhecer que não se conhece.
A pessoa que admite sua ignorância ainda pode fazer perguntas. A pessoa convencida de que já entendeu tudo fecha as janelas, tranca as portas e chama seu pequeno quarto de universo.
Paulo escreveu aos coríntios:
“O saber ensoberbece, mas o amor edifica. Se alguém julga saber alguma coisa, com efeito, não aprendeu ainda como convém saber.”
1 Coríntios 8:1-2
Paulo não está desprezando o conhecimento. Ele próprio era profundamente instruído. Sua advertência é contra um conhecimento desacompanhado de humildade, amor e consciência dos próprios limites.
Há um conhecimento que ilumina.
Mas existe também um conhecimento que apenas infla.
Quem é iluminado enxerga melhor. Quem está inflado apenas parece maior.
Na vida cristã, essa inflação pode surgir rapidamente. Alguém aprende uma doutrina e passa a enxergar heresia em toda parte. Descobre uma linha teológica e começa a tratar outras tradições cristãs com desprezo. Participa de algumas experiências espirituais e acredita compreender perfeitamente os caminhos de Deus. Recebe uma oportunidade para ensinar e passa a imaginar que já não precisa ser ensinado.
A pessoa não percebe que está apenas no início da estrada porque os primeiros metros lhe deram a sensação de ter chegado.
A montanha dos iniciantes
Os primeiros resultados costumam produzir uma confiança desproporcional.
Quem preparou três boas mensagens pode imaginar que domina a pregação. Quem aconselhou uma pessoa com sucesso pode acreditar que compreende a complexidade da alma humana. Quem leu alguns livros sobre casamento pode começar a distribuir diagnósticos sobre todas as famílias. Quem recebeu elogios por uma oração pode concluir que possui uma intimidade especial com Deus.
Pequenas vitórias podem criar grandes ilusões.
O êxito inicial nem sempre revela maturidade. Às vezes, revela apenas entusiasmo, circunstâncias favoráveis ou a misericórdia de Deus agindo apesar de nossa imaturidade.
Sansão confundiu repetidas vitórias com força permanente. Depois de tantas experiências bem-sucedidas, acreditou que poderia levantar-se mais uma vez e escapar como antes. O texto, porém, registra uma das frases mais trágicas das Escrituras:
“Porque ele não sabia ainda que já o Senhor se tinha retirado dele.”
Juízes 16:20
Sansão conhecia sua força, mas não conhecia sua fragilidade.
Sabia o que era capaz de fazer, mas não percebeu o que havia se tornado.
Esse é um dos maiores perigos da certeza prematura: a pessoa continua agindo com base em uma versão de si mesma que já não corresponde à realidade.
Pedro e a confiança que ainda não havia sido provada
Pedro amava Jesus. Sua disposição era verdadeira. Sua coragem, porém, ainda não tinha sido confrontada por circunstâncias reais.
Quando Cristo anunciou que os discípulos se dispersariam, Pedro respondeu:
“Ainda que todos se escandalizem por tua causa, eu nunca me escandalizarei.”
Mateus 26:33
Observe sua comparação: “Ainda que todos…”
Pedro não apenas confiava em si; considerava-se mais confiável do que os outros. Sua avaliação espiritual não havia nascido do autoconhecimento, mas da emoção daquele momento.
Poucas horas depois, ele negaria Jesus três vezes.
A queda de Pedro não revelou apenas sua covardia. Revelou que ele desconhecia a si mesmo.
Enquanto Pedro dizia “nunca”, Jesus sabia que existia dentro dele uma fraqueza que ainda não havia sido exposta. O fracasso, embora doloroso, tornou-se uma forma de revelação.
Há verdades sobre nós que não aprendemos em salas de aula. Aprendemos quando nossas promessas encontram a pressão, quando nossas convicções enfrentam perdas e quando nossa imagem espiritual desmorona diante da realidade.
Pedro precisou perder a confiança em seu próprio “nunca” para aprender a depender da graça.
Mais tarde, quando Jesus lhe perguntou três vezes se o amava, Pedro já não respondeu com a arrogância de quem se conhece perfeitamente. Disse:
“Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo.”
João 21:17
Antes, Pedro confiava no que sabia sobre si.
Depois, passou a descansar no que Cristo sabia sobre ele.
Essa mudança é maturidade.
O vale não é abandono
Depois da confiança exagerada costuma surgir um vale.
A pessoa começa a estudar mais e descobre a complexidade do assunto. Quanto mais aprende, mais percebe o tamanho daquilo que ignora. Suas respostas rápidas desaparecem. Suas afirmações tornam-se mais cuidadosas. A segurança inicial dá lugar à sensação de incapacidade.
Esse vale pode parecer uma crise, mas frequentemente é uma graça.
É o lugar em que a ilusão morre para que a sabedoria possa nascer.
Jó atravessou esse processo. Durante grande parte de seu sofrimento, tentou interpretar o que estava acontecendo. Quando Deus finalmente o confrontou, Jó declarou:
“Falei do que não entendia; coisas maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia.”
Jó 42:3
Jó não terminou sua experiência sabendo tudo. Terminou sabendo que não sabia tudo.
E essa percepção não o afastou de Deus. Levou-o a uma reverência mais profunda.
A fé imatura deseja explicações para tudo. A fé amadurecida aprende que confiar em Deus é diferente de possuir todas as respostas sobre Deus.
Existem vales intelectuais, ministeriais e espirituais nos quais Deus não está destruindo nossa vocação. Está destruindo nossa presunção.
Não é o fim do aprendizado. É o fim da fantasia de que aprenderíamos sem ser humilhados.
A maturidade fala mais baixo
No início, as pessoas costumam falar com grande segurança porque ainda enxergam poucos detalhes. Com o crescimento, percebem exceções, tensões, contextos e limites.
Isso não significa que a maturidade elimina convicções.
Humildade não é viver sem certezas. É reconhecer que até nossas certezas devem permanecer submetidas à Palavra de Deus.
Paulo possuía convicções firmes, mas escreveu:
“Porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em parte.”
1 Coríntios 13:12
O apóstolo que recebeu revelações extraordinárias ainda dizia: “Conheço em parte.”
Nossa geração, porém, frequentemente conhece em parte e se pronuncia como se enxergasse face a face.
Nas redes sociais, todos parecem especialistas. Pessoas analisam tragédias sem conhecer as vítimas, julgam casamentos sem conhecer a história, condenam igrejas sem conhecer o contexto e diagnosticam líderes a partir de pequenos recortes.
A velocidade da opinião tornou-se maior do que a profundidade da reflexão.
Antes de ouvir, respondemos.
Antes de compreender, classificamos.
Antes de orar, publicamos.
A tecnologia ampliou nossa voz, mas não necessariamente nossa sabedoria. Hoje, uma pessoa pode alcançar milhares de pessoas antes de alcançar maturidade.
Especialistas instantâneos dentro da igreja
A igreja não está imune à superficialidade revestida de convicção.
Talvez seja justamente no ambiente religioso que a certeza prematura se torne ainda mais perigosa, porque opiniões pessoais podem ser apresentadas como se fossem declarações divinas.
Podemos usar a expressão “Deus me disse” para impedir qualquer questionamento. Podemos citar versículos fora de contexto para legitimar preferências. Podemos transformar experiências particulares em regras universais. Podemos confundir posição eclesiástica com maturidade espiritual.
Há pessoas que conhecem a terminologia da fé, mas ainda não foram profundamente transformadas pelo espírito de Cristo.
Sabem falar sobre serviço, mas não aceitam tarefas invisíveis.
Pregam submissão, mas não recebem correção.
Defendem a verdade, mas não demonstram amor.
Ensinam sobre o corpo de Cristo, mas tratam outros membros como concorrentes.
Tiago alerta:
“Meus irmãos, não vos torneis muitos de vós mestres, sabendo que havemos de receber maior juízo.”
Tiago 3:1
A advertência não existe porque ensinar seja algo indesejável, mas porque a influência pode crescer antes do caráter.
Nem toda pessoa que fala bem está preparada para conduzir. Nem toda pessoa que possui informação possui sabedoria. Nem toda plataforma é confirmação divina.
Às vezes, a oportunidade não revela que chegamos. Apenas revela onde ainda precisamos crescer.
O fracasso que devolve a visão
O fracasso pode realizar aquilo que os elogios não conseguiram.
Ele interrompe nossa narrativa de autossuficiência, expõe nossas limitações e nos obriga a rever o lugar que ocupamos.
Por isso, algumas quedas, embora não sejam boas em si mesmas, podem produzir frutos preciosos quando respondemos com arrependimento.
Davi caiu e descobriu que o rei também precisava clamar:
“Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável.”
Salmos 51:10
Paulo recebeu revelações, mas também conviveu com um espinho que o impedia de se exaltar. A resposta de Deus não foi aumentar a autoconfiança do apóstolo, mas ensiná-lo a depender da graça:
“A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza.”
2 Coríntios 12:9
O mundo nos ensina a esconder fraquezas para preservar autoridade.
O evangelho nos ensina a reconhecer fraquezas para experimentar graça.
O fracasso se torna destrutivo quando produz cinismo, desistência ou autopiedade. Mas pode se tornar redentor quando nos conduz da ilusão à dependência.
O conhecimento que se ajoelha
A solução para a arrogância não é abandonar o conhecimento. É colocá-lo de joelhos.
Deus não nos chama a permanecer ignorantes, mas a crescer de maneira sóbria:
“Digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação.”
Romanos 12:3
Pensar com moderação significa fugir tanto da superioridade quanto da falsa inferioridade.
A pessoa madura não precisa fingir que não possui dons. Também não precisa transformar seus dons em um trono.
Ela reconhece o que recebeu, entende que recebeu pela graça e permanece ensinável.
Apolo era eloquente, poderoso nas Escrituras e fervoroso de espírito. Ainda assim, seu conhecimento era incompleto. Quando Priscila e Áquila lhe explicaram com maior precisão o caminho de Deus, ele aceitou ser instruído.
“Tomaram-no consigo e, com mais exatidão, lhe expuseram o caminho de Deus.”
Atos 18:26
Apolo não perdeu autoridade ao aprender com outros.
Sua disposição para ser corrigido demonstrou que sua eloquência não havia destruído sua humildade.
O verdadeiro sábio não é aquele que nunca precisa ser corrigido. É aquele que não considera a correção uma ameaça à própria identidade.
Antes de corrigir o mundo
Talvez o grande desafio não seja identificar a confiança exagerada nos outros, mas perceber onde ela se esconde em nós.
Em que assunto você fala mais do que estuda?
Em que área deixou de fazer perguntas?
Que críticas você costuma fazer sem conhecer todo o contexto?
Quando foi a última vez que mudou de opinião depois de ouvir alguém?
Como reage quando uma pessoa menos experiente, mais jovem ou sem posição aponta um erro seu?
Você busca a verdade ou apenas argumentos que confirmem aquilo que já decidiu acreditar?
A sabedoria bíblica começa quando abandonamos a necessidade de parecer sábios.
“O caminho do insensato aos seus próprios olhos parece reto, mas o sábio dá ouvidos aos conselhos.”
Provérbios 12:15
O insensato não é descrito apenas como alguém que escolhe o caminho errado. Ele é alguém para quem seu próprio caminho sempre parece certo.
Esse é o verdadeiro perigo: não errar, mas tornar-se incapaz de suspeitar do próprio erro.
Da certeza à sabedoria
Todo especialista já foi iniciante. Todo mestre precisou ser discípulo. Toda convicção madura atravessou perguntas, correções, fracassos e revisões.
O caminho da sabedoria não é uma subida contínua de autoconfiança. Em algum momento, precisamos descer ao vale em que percebemos nossa pequenez.
Ali, nossas certezas superficiais são desmontadas.
Ali, aprendemos a ouvir.
Ali, descobrimos que Deus não precisa de nossa aparência de competência.
Ali, a confiança deixa de repousar na imagem que construímos sobre nós mesmos e passa a descansar na fidelidade daquele que nos chamou.
A maturidade cristã não acontece quando finalmente conseguimos responder a todas as perguntas.
Ela começa quando já não precisamos fingir que temos todas as respostas.
O homem sábio não é aquele que contempla o oceano e afirma tê-lo dominado. É aquele que, depois de entrar em suas águas, percebe sua profundidade e aprende a caminhar com reverência.
Quanto mais verdadeiramente conhecemos a Deus, menos espaço encontramos para a arrogância.
E quanto mais percebemos o quanto ainda precisamos aprender, mais preparados estamos para finalmente começar a compreender.