“Ai dos que descem ao Egito em busca de socorro, que confiam em cavalos, que confiam na multidão dos seus carros e na grande força dos seus cavaleiros, mas não olham para o Santo de Israel, nem buscam o Senhor!”
Isaías 31:1
Há momentos em que a falta de fé não parece incredulidade.
Parece planejamento.
Parece prudência.
Parece estratégia.
Parece apenas “manter algumas opções abertas”.
Judá estava ameaçada. A Assíria era poderosa, a crise era real e o Egito possuía aquilo que qualquer consultor militar da época recomendaria: cavalos, carros de guerra, soldados e poder político.
Descer ao Egito parecia sensato.
O problema é que Deus chamou aquilo de pecado.
Não porque cavalos fossem maus.
Não porque alianças políticas fossem sempre proibidas.
Não porque planejamento fosse incompatível com espiritualidade.
O problema estava em uma pequena palavra escondida no texto:
confiar.
“Ai dos que… confiam em cavalos…”
Isaías não está discutindo logística militar.
Está expondo a arquitetura secreta do coração.
E talvez ainda estejamos descendo ao Egito.
Só mudaram os cavalos.
O EGITO NÃO É APENAS UM LUGAR
Quando pensamos em idolatria, imaginamos pessoas curvadas diante de imagens.
A Bíblia apresenta algo mais desconfortável.
Também podemos idolatrar aquilo que funciona.
O Egito possuía recursos reais.
Seus cavalos realmente corriam.
Seus exércitos realmente intimidavam.
Seus estrategistas realmente sabiam lutar.
Essa é justamente a sedução.
Há falsos deuses cuja força é imaginária.
Mas há também falsos deuses que funcionam durante algum tempo.
Dinheiro funciona.
Influência funciona.
Relacionamentos funcionam.
Tecnologia funciona.
Conhecimento funciona.
Poder político funciona.
Prestígio funciona.
Networking funciona.
Um bom patrimônio pode proteger você de muitas crises.
Um excelente médico pode salvar sua vida.
Um advogado competente pode defender seus interesses.
Uma empresa sólida pode oferecer estabilidade.
Nada disso precisa ser rejeitado.
Mas qualquer uma dessas coisas pode, silenciosamente, ocupar uma função que nunca lhe pertenceu:
tornar-se a razão pela qual conseguimos dormir tranquilos.
É aí que o recurso deixa de ser ferramenta e começa a se transformar em altar.
O PECADO DE JUDÁ FOI OLHAR PARA BAIXO
Isaías utiliza uma expressão impressionante:
“Ai dos que descem ao Egito…”
Geograficamente, era uma viagem.
Espiritualmente, era uma direção.
Quando a ameaça chegou, Judá olhou para onde havia poder disponível.
Desceu.
Calculou.
Negociou.
Buscou proteção.
Mas o profeta acrescenta:
“…não olham para o Santo de Israel.”
Esse talvez seja um dos diagnósticos mais atuais das Escrituras.
O problema não é necessariamente aquilo para onde olhamos.
É aquilo que deixamos de olhar quando a crise chega.
Quando algo ameaça nosso futuro, para onde nossos olhos correm primeiro?
Para a conta bancária?
Para os contatos?
Para os números?
Para o governo?
Para uma oportunidade?
Para um especialista?
Para um relacionamento?
Para um algoritmo?
Para nossa capacidade de improvisar?
Podemos até orar depois.
Mas aquilo que procuramos primeiro frequentemente revela aquilo em que confiamos profundamente.
TODO MUNDO TEM UM EGITO
Talvez o Egito moderno não esteja no mapa.
Talvez esteja no coração.
Egito é tudo aquilo para o qual dizemos silenciosamente:
“Se eu tiver isso, ficarei seguro.”
Para alguns:
“Se eu tiver dinheiro suficiente…”
Para outros:
“Se determinada pessoa estiver ao meu lado…”
“Se aquele candidato vencer…”
“Se meu emprego permanecer…”
“Se meu negócio crescer…”
“Se meus filhos estiverem bem…”
“Se minha reputação continuar intacta…”
“Se eu conseguir controlar todas as variáveis…”
Então descansarei.
Perceba a sutileza.
Não estamos necessariamente dizendo:
“Não preciso de Deus.”
Estamos dizendo algo mais sofisticado:
“Preciso de Deus, mas seria melhor ter alguns cavalos também.”
E lentamente Deus deixa de ser nossa segurança para tornar-se uma espécie de cobertura espiritual sobre nossas verdadeiras seguranças.
DEUS NÃO É CONTRA OS CAVALOS
Essa distinção é fundamental.
A Bíblia não ensina irresponsabilidade.
José armazenou alimentos no Egito.
Neemias organizou trabalhadores e guardas.
Paulo utilizou sua cidadania romana.
Provérbios elogia planejamento, diligência e prudência.
O problema nunca foi usar recursos.
O problema é atribuir aos recursos aquilo que somente Deus pode oferecer.
Podemos ter seguro sem fazer do seguro nosso salvador.
Podemos investir sem transformar patrimônio em providência.
Podemos votar sem transformar política em messianismo.
Podemos procurar médicos sem imaginar que a medicina possui a palavra final.
Podemos usar tecnologia sem acreditar que todo problema humano será solucionado por inovação.
Podemos planejar cuidadosamente enquanto confessamos:
“O coração do homem planeja o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos.”
Provérbios 16:9
Fé não é viver sem planos.
Fé é saber quem continua sendo Deus quando nossos planos falham.
O GRANDE PROBLEMA DOS CAVALOS
O versículo seguinte desmonta a ilusão de Judá:
“Pois os egípcios são homens, e não Deus; os seus cavalos são carne, e não espírito.”
Isaías 31:3
Que frase devastadora.
São homens, não Deus.
Talvez precisemos escrever isso sobre muitas coisas que nos impressionam.
O mercado é mercado.
Não Deus.
O Estado é Estado.
Não Deus.
A medicina é medicina.
Não Deus.
A tecnologia é tecnologia.
Não Deus.
Meu dinheiro é dinheiro.
Não Deus.
Meu pastor é pastor.
Não Deus.
Minha família é família.
Não Deus.
Meu conhecimento é conhecimento.
Não Deus.
Meu planejamento é planejamento.
Não Deus.
Os cavalos são carne.
Podem ser rápidos.
Podem ser fortes.
Podem ser sofisticados.
Podem ser impressionantes.
Mas continuam sendo carne.
Tudo aquilo que pode quebrar, falir, morrer, mudar, desaparecer ou ser perdido é incapaz de sustentar o peso absoluto da nossa confiança.
A ANSIEDADE REVELA NOSSOS ALTARES
Há uma perspectiva pouco percebida nesse texto.
Muitas vezes, nossa ansiedade não revela apenas aquilo que tememos perder.
Revela aquilo em que depositamos nossa segurança.
Se perder determinada coisa parece significar perder toda esperança, talvez aquela coisa tenha se tornado grande demais dentro de nós.
Por isso algumas perdas possuem poder quase apocalíptico.
Não perdemos apenas dinheiro.
Perdemos nosso “salvador”.
Não perdemos apenas um cargo.
Perdemos nossa identidade.
Não perdemos apenas influência.
Perdemos nossa sensação de controle.
Não perdemos apenas determinada pessoa.
Perdemos aquilo que julgávamos indispensável para continuar vivendo.
A ansiedade pode funcionar como uma espécie de exame espiritual:
o que precisa permanecer intacto para que eu continue acreditando que tudo ficará bem?
A resposta pode revelar nosso Egito.
QUANDO A PRUDÊNCIA ESCONDE INCREDULIDADE
Esse talvez seja o aspecto mais provocativo da advertência de Isaías.
Judá poderia justificar perfeitamente sua decisão.
“Precisamos ser responsáveis.”
“Deus nos deu inteligência.”
“Não podemos esperar um milagre.”
“Temos que fazer nossa parte.”
Todas essas frases podem ser verdadeiras.
E todas podem também esconder incredulidade.
Porque existe uma prudência que nasce da sabedoria.
E existe uma prudência que nasce do medo.
Externamente, parecem iguais.
A diferença está no coração.
Uma planeja depois de confiar.
A outra planeja porque não consegue confiar.
Uma utiliza os meios que Deus oferece.
A outra transforma os meios em substitutos de Deus.
ASA TAMBÉM DESCOBRIU ISSO
Séculos antes, o rei Asa enfrentou dilema semelhante.
Em determinado momento de sua história, buscou ajuda política em vez de depender do Senhor.
O profeta Hanani o confrontou:
“Porque você confiou no rei da Síria e não confiou no Senhor, seu Deus…”
2 Crônicas 16:7
E então declarou:
“Porque, quanto ao Senhor, seus olhos passam por toda a terra, para mostrar-se forte para com aqueles cujo coração é totalmente dele.”
2 Crônicas 16:9
A questão nunca foi possuir aliados.
Era saber quem era considerado decisivo.
Esse continua sendo o teste.
Quando tudo está ameaçado, quem acreditamos realmente decidir nosso futuro?
ALGUNS CONFIAM EM CARROS
O salmista faz a mesma distinção:
“Uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do Senhor, nosso Deus.”
Salmo 20:7
Observe novamente:
os carros existem.
Os cavalos existem.
Mas existe algo superior a eles.
A fé bíblica não nega a realidade dos recursos humanos.
Ela apenas se recusa a tratá-los como realidade última.
Essa talvez seja uma das maiores necessidades da igreja contemporânea.
Não precisamos abandonar competência.
Precisamos abandonar a idolatria da competência.
Não precisamos desprezar estruturas.
Precisamos parar de esperar delas redenção.
Não precisamos fugir da política.
Precisamos deixar de esperar que César faça aquilo que somente Cristo pode fazer.
Não precisamos rejeitar dinheiro.
Precisamos impedir que Mamom defina nossa sensação de segurança.
Não precisamos rejeitar tecnologia.
Precisamos lembrar que algoritmos podem prever comportamentos, mas não governam a providência.
SEGURANÇA NÃO É AUSÊNCIA DE RISCO
Aqui está outra inversão importante.
Frequentemente pensamos:
“Se Deus estiver comigo, tudo dará certo.”
Biblicamente, segurança não significa que nada difícil acontecerá.
Significa que, aconteça o que acontecer, nada conseguirá retirar Deus de seu trono.
Paulo não encontrou segurança porque escapou de toda perseguição.
Encontrou segurança porque percebeu que nem:
“morte, nem vida… nem coisas do presente, nem do porvir…”
poderiam separá-lo do amor de Deus em Cristo.
Veja Romanos 8:38–39.
Segurança cristã não é controle das circunstâncias.
É confiança no Senhor das circunstâncias.
CRISTO NÃO É NOSSO PLANO B
Talvez uma das distorções mais discretas da espiritualidade moderna seja utilizar Deus como garantia complementar.
Planejamos tudo.
Controlamos tudo.
Protegemos tudo.
Calculamos tudo.
E então oramos:
“Senhor, abençoe.”
Deus recebe a função de carimbar aquilo que já decidimos.
Mas o evangelho não nos chama para adicionar Jesus à arquitetura da nossa segurança.
Ele chama para reconstruir toda essa arquitetura sobre Cristo.
“Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo.”
1 Coríntios 3:11
Cristo não é o seguro contra falhas do nosso Egito.
Cristo é o fundamento que torna o Egito desnecessário como salvador.
TALVEZ DEUS PERMITA QUE ALGUNS CAVALOS TROPECEM
E aqui encontramos uma perspectiva ainda mais desconfortável.
Às vezes, Deus permite que nossas falsas seguranças falhem.
Não necessariamente porque deseja nos destruir.
Mas porque deseja nos libertar daquilo que estava ocupando seu lugar.
Há perdas que parecem abandono divino e podem ser, paradoxalmente, misericórdia.
O emprego termina.
O plano fracassa.
A influência diminui.
Uma porta se fecha.
O patrimônio balança.
Uma estratégia não funciona.
Uma pessoa vai embora.
E ficamos diante da pergunta que tentávamos evitar:
Deus ainda é suficiente quando o Egito não responde?
É relativamente fácil cantar sobre confiança quando os cavalos estão no estábulo.
A fé é revelada quando ouvimos o silêncio deles.
NÃO DESÇA AO EGITO
Talvez hoje ninguém esteja convidando você para uma aliança militar.
Mas talvez sua alma esteja descendo ao Egito.
Talvez esteja procurando algum mecanismo capaz de eliminar sua necessidade de depender de Deus.
Controle.
Dinheiro.
Prestígio.
Planejamento obsessivo.
Aprovação.
Relacionamentos.
Poder.
Conhecimento.
Previsibilidade.
A pergunta de Isaías atravessa os séculos:
Para onde você está olhando em busca de socorro?
Não significa abandonar responsabilidades.
Faça seu planejamento.
Procure conselho.
Economize.
Trabalhe.
Estude.
Prepare-se.
Construa.
Vote.
Invista.
Proteja sua família.
Use os cavalos.
Só não se ajoelhe diante deles.
Porque chegará o dia em que todo cavalo demonstrará que é apenas carne.
Toda instituição mostrará seus limites.
Todo patrimônio revelará sua fragilidade.
Todo poder humano encontrará uma fronteira.
Mas:
“Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações.”
Salmo 46:1
O ÚLTIMO CAVALEIRO NÃO GOVERNA A HISTÓRIA
Impérios parecem definitivos.
Mercados parecem soberanos.
Governos parecem decisivos.
Crises parecem incontornáveis.
Mas Isaías nos recorda uma verdade revolucionária:
o poder visível nunca é o poder supremo.
Acima dos exércitos existe o Senhor dos Exércitos.
Acima das economias existe a providência.
Acima das decisões humanas existe um Rei.
Acima do medo existe uma promessa.
E acima de todos os nossos pequenos Egitos está Jesus Cristo, a quem foi dada:
“Toda autoridade no céu e na terra.”
Mateus 28:18
Por isso a segurança do cristão nunca esteve na estabilidade do mundo.
Está na estabilidade do trono.
Talvez os cavalos sejam muitos.
Talvez os carros sejam poderosos.
Talvez a ameaça seja real.
Mas continuam sendo homens.
Continuam sendo carne.
Continuam sendo temporários.
Deus continua sendo Deus.
E talvez fé seja justamente isto:
usar aquilo que está em nossas mãos sem entregar a essas coisas o coração que pertence somente a Ele.