“Então, Calebe fez calar o povo perante Moisés e disse: Eia! Subamos e possuamos a terra, porque certamente prevaleceremos contra ela.”
Números 13:30
Há momentos em que todos estão olhando para a mesma realidade, mas nem todos estão vendo a mesma coisa.
Doze homens atravessaram a mesma terra.
Viram as mesmas cidades.
Observaram os mesmos gigantes.
Trouxeram os mesmos frutos.
Enfrentaram os mesmos riscos.
Ainda assim, voltaram com dois tipos completamente diferentes de relatório.
Dez disseram:
“Não poderemos subir contra aquele povo, porque é mais forte do que nós.”
(Números 13:31)
Calebe disse:
“Subamos e possuamos a terra.”
A diferença não estava na paisagem.
Estava no olhar.
Talvez uma das maiores crises espirituais do nosso tempo não seja falta de informação, mas incapacidade de interpretar corretamente aquilo que vemos.
Temos dados.
Temos notícias.
Temos diagnósticos.
Temos projeções.
Temos estatísticas.
Temos especialistas.
Sabemos quase tudo sobre nossos gigantes.
Mas podemos saber muito sobre aquilo que está diante de nós e ainda esquecer Quem está conosco.
Fé não é fechar os olhos
Existe uma caricatura perigosa da fé.
Como se acreditar em Deus significasse ignorar os problemas.
Como se a espiritualidade exigisse fingir que não existem gigantes, crises, enfermidades, limitações, conflitos ou impossibilidades.
Calebe não negou os gigantes.
Ele os viu.
Entrou na terra.
Observou suas cidades fortificadas.
Conheceu o tamanho dos obstáculos.
Sua fé não nasceu da ignorância.
Nasceu de uma conclusão diferente sobre aquilo que havia observado.
Os outros espias pensaram:
“Eles são maiores do que nós.”
Calebe parece ter raciocinado:
“Eles podem ser maiores do que nós, mas não são maiores do que Deus.”
Essa pequena mudança de referência transforma completamente a interpretação da realidade.
O medo compara o problema conosco.
A fé compara o problema com Deus.
O problema dos dez espias não era falta de lógica
Curiosamente, os dez espias estavam corretos em muitas de suas observações.
As cidades realmente eram fortificadas.
Os habitantes realmente eram poderosos.
Havia, de fato, descendentes de gigantes naquela terra.
O erro deles não estava necessariamente nos fatos.
Estava na conclusão.
Eles fizeram uma leitura da realidade excluindo Deus da equação.
E essa talvez seja uma das formas mais sofisticadas de incredulidade.
Não precisamos negar Deus verbalmente para viver como se Ele não existisse.
Basta analisar todas as situações apenas pelos recursos humanos disponíveis.
Quando nossa pergunta é apenas:
Quanto dinheiro temos?
Quantas pessoas temos?
Qual é a probabilidade?
Quem está contra nós?
Qual é a força do adversário?
Podemos acabar produzindo relatórios tecnicamente impecáveis e espiritualmente incrédulos.
A fé não despreza os números.
Ela apenas se recusa a transformar números em deuses.
O medo também faz teologia
Há uma frase impressionante no relato dos espias:
“Éramos, aos nossos próprios olhos, como gafanhotos e assim também o éramos aos seus olhos.”
Números 13:33
Observe.
Eles sabiam como os inimigos os enxergavam?
Provavelmente não.
Mas o medo já havia escrito a narrativa inteira.
Primeiro:
“Somos gafanhotos.”
Depois:
“Eles também nos veem como gafanhotos.”
É assim que o medo trabalha.
Ele começa como percepção.
Depois se transforma em identidade.
Finalmente vira profecia.
Talvez o gigante mais perigoso daquele episódio não estivesse em Canaã.
Estava dentro deles.
Porque antes de serem derrotados por qualquer exército, dez espias já haviam sido derrotados pela interpretação que fizeram de si mesmos.
Quantas batalhas também perdemos assim?
Não porque alguém nos venceu.
Mas porque já entramos na situação convencidos de que somos pequenos demais.
Incapazes demais.
Fracos demais.
Velhos demais.
Novos demais.
Pobres demais.
Despreparados demais.
A incredulidade transforma circunstâncias temporárias em identidades permanentes.
Calebe enxergava a promessa atrás do problema
Quando Calebe disse:
“Subamos.”
Ele não estava apenas demonstrando coragem.
Estava lembrando ao povo que aquela terra já havia sido prometida.
Muito antes dos espias chegarem ali, Deus havia dito a Abraão:
“À tua descendência darei esta terra.”
Gênesis 12:7
Portanto, Canaã não era apenas um território ocupado por povos fortes.
Era uma promessa.
Os dez espias interpretaram a terra pela presença dos gigantes.
Calebe interpretou os gigantes pela presença da promessa.
Essa ordem importa.
Porque sempre haverá duas maneiras de enxergar nossas circunstâncias.
Podemos interpretar aquilo que Deus disse à luz do que estamos vivendo.
Ou interpretar aquilo que estamos vivendo à luz do que Deus disse.
A primeira frequentemente produz desespero.
A segunda produz perseverança.
Há circunstâncias que gritam mais alto do que promessas
Alguns gigantes fazem muito barulho.
Uma conta vencida.
Uma porta fechada.
Um diagnóstico.
Uma rejeição.
Um casamento desgastado.
Um ministério sem resultados aparentes.
Uma oração ainda não respondida.
Uma espera que parece longa demais.
A circunstância começa a repetir:
“Não vai acontecer.”
“Você não conseguirá.”
“Deus esqueceu.”
“Acabou.”
E, lentamente, aquilo que vemos começa a ocupar um espaço maior dentro de nós do que aquilo que Deus falou.
Esse é o campo de batalha da fé.
Não apenas acreditar que Deus existe.
Mas decidir qual voz terá autoridade para interpretar a realidade.
Fé não diz que o gigante é pequeno
Fé diz que Deus é maior.
Essa diferença protege o cristão de dois extremos.
De um lado, o pessimismo:
“Não há solução.”
Do outro, o triunfalismo superficial:
“Não existe problema.”
A Bíblia não ensina nenhum dos dois.
Davi não disse que Golias era pequeno.
Daniel não disse que os leões eram inofensivos.
Josafá não disse que o exército inimigo era fraco.
Paulo não disse que suas prisões eram imaginárias.
Todos reconheceram a realidade.
Mas se recusaram a permitir que a realidade visível fosse considerada a realidade final.
Paulo resumiu essa perspectiva:
“Porque andamos por fé e não pelo que vemos.”
2 Coríntios 5:7
Andar por fé não é desprezar o visível.
É reconhecer que o visível não é tudo o que existe.
Às vezes a maioria está errada
Aqui existe outra provocação importante.
Dez contra dois.
Em qualquer votação democrática, o relatório pessimista venceria com facilidade.
A maioria tinha argumentos.
A maioria tinha experiência.
A maioria tinha evidências.
A maioria concordava.
Mas a maioria estava errada.
Isso deveria nos deixar espiritualmente atentos.
Consenso não é necessariamente verdade.
Popularidade não é necessariamente discernimento.
Aquilo que todos repetem não se transforma automaticamente naquilo que Deus disse.
Há momentos em que seguir Deus significará permanecer em minoria.
Noé estava em minoria.
Josué e Calebe estavam em minoria.
Elias esteve aparentemente sozinho diante dos profetas de Baal.
Os apóstolos anunciaram uma mensagem que confrontava impérios, religiões e sistemas inteiros.
A fé bíblica nunca foi simplesmente uma pesquisa de opinião.
Existem gigantes que Deus não remove antes da caminhada
Gostaríamos que Deus dissesse:
“Primeiro eliminarei os gigantes. Depois vocês entram.”
Mas não foi assim.
A promessa não significava ausência de confronto.
Significava presença de Deus no confronto.
Esse princípio continua desconfortavelmente atual.
Às vezes pedimos a Deus confirmação, quando Ele já deu direção.
Pedimos segurança, quando Ele está pedindo confiança.
Pedimos um caminho sem resistência, quando talvez a resistência seja exatamente o lugar onde nossa fé será amadurecida.
Talvez algumas portas não se abram automaticamente.
Precisaremos atravessá-las.
Talvez algumas muralhas não desapareçam quando oramos.
Precisaremos marchar ao redor delas.
Talvez alguns gigantes permaneçam visíveis até o momento do confronto.
Não porque Deus nos abandonou.
Mas porque a fé também precisa aprender a caminhar enquanto eles ainda estão diante de nós.
O relatório que você acredita determina o caminho que você escolhe
Israel ouviu os dez espias.
E chorou.
Depois murmurou.
Depois quis voltar ao Egito.
Veja a progressão:
interpretação → emoção → decisão.
Primeiro acreditaram no relatório errado.
Depois sentiram medo.
Finalmente desejaram retroceder.
É por isso que aquilo que alimenta nossa mente importa tanto.
Todo dia recebemos relatórios.
Da cultura.
Do mercado.
Das redes sociais.
Das notícias.
Dos nossos traumas.
Dos nossos fracassos.
Da opinião das pessoas.
Alguns deles dizem:
“Você nunca conseguirá.”
“Nada vai mudar.”
“Seu passado determina seu futuro.”
“É tarde demais.”
Mas a pergunta cristã não é simplesmente:
“O que as circunstâncias estão dizendo?”
A pergunta é:
“O que Deus disse?”
Calebe tinha outro espírito
Décadas depois, Deus disse algo extraordinário sobre ele:
“Porém o meu servo Calebe, visto que nele houve outro espírito e perseverou em seguir-me, eu o farei entrar na terra.”
Números 14:24
Calebe não possuía apenas otimismo.
Possuía perseverança.
Sua confiança não era uma explosão momentânea de entusiasmo.
Quarenta anos depois, aos oitenta e cinco anos, ele ainda diria:
“Dá-me, pois, este monte.”
Josué 14:12
Os gigantes envelheceram.
Calebe também.
Mas sua confiança permaneceu.
Essa talvez seja uma das marcas mais profundas da fé:
não apenas acreditar quando a promessa é anunciada,
mas continuar acreditando quando anos se passam entre a promessa e o cumprimento.
Talvez a montanha continue ocupada
Calebe finalmente entrou em Canaã.
Mas havia um detalhe.
Os anaquins ainda estavam lá.
O homem que acreditara quarenta anos antes não recebeu uma propriedade sem resistência.
Recebeu uma montanha ocupada por gigantes.
E pediu justamente aquela.
Isso muda nossa maneira de pensar sobre bênção.
Às vezes imaginamos que a bênção de Deus será reconhecida pela ausência de oposição.
Calebe demonstra o contrário.
Há promessas que chegam acompanhadas de batalhas.
Há territórios que precisam ser conquistados.
Há chamados que exigem coragem.
Há propósitos que nos colocarão diante daquilo que mais nos intimida.
E talvez a pergunta não seja:
“Por que existem gigantes nessa terra?”
Talvez seja:
“Quem eu me tornarei enquanto caminho com Deus através dela?”
A fé vê além
Fé não é enxergar um mundo imaginário.
É enxergar o mundo inteiro.
A incredulidade vê o gigante.
A fé vê o gigante e Deus.
A incredulidade vê a muralha.
A fé vê a muralha e a promessa.
A incredulidade vê a escassez.
A fé vê a escassez e o Provedor.
A incredulidade vê o impossível.
A fé vê o impossível e pergunta o que Deus pode fazer ali.
Foi por isso que Paulo escreveu:
“Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas.”
2 Coríntios 4:18
A fé cristã possui essa estranha capacidade de olhar diretamente para a realidade sem se tornar prisioneira dela.
Qual relatório governa você?
Talvez você esteja diante de uma Canaã particular.
Existe uma promessa.
Existe um caminho.
Mas também existem gigantes.
Você pode estar olhando para sua família.
Seu futuro.
Seu ministério.
Seu trabalho.
Seu chamado.
Sua vida espiritual.
E pensando:
“É grande demais.”
Talvez seja.
Mas essa nunca foi a pergunta principal.
Os gigantes eram grandes.
As muralhas eram altas.
Os exércitos eram fortes.
Tudo isso era verdade.
Só não era toda a verdade.
Deus também estava ali.
E quando Deus está presente, as circunstâncias deixam de ser o limite final da história.
Calebe olhou para uma terra cheia de obstáculos e disse:
“Subamos.”
Talvez exista uma palavra semelhante para nós hoje.
Não:
“Finja que não há gigantes.”
Não:
“Negue os problemas.”
Não:
“Repita frases positivas.”
Mas:
Levante os olhos.
Lembre-se da promessa.
Recalcule a realidade incluindo Deus.
E então caminhe.
Porque a fé não é a capacidade de enxergar uma estrada sem obstáculos.
É a coragem de continuar avançando quando nossos olhos finalmente percebem que os obstáculos nunca foram maiores do que Aquele que nos chamou para atravessá-los.