Porta Intocada

Há uma frase que parece espiritual, madura e resignada:

“Deus não abriu a porta.”

Nós a pronunciamos para explicar oportunidades perdidas, projetos abandonados, conversas adiadas, ministérios nunca iniciados e decisões que não tivemos coragem de tomar. A frase oferece certo conforto, porque transfere para Deus a responsabilidade por aquilo que talvez tenha sido nossa omissão.

Mas existe uma pergunta desconfortável que precisa ser feita:

Deus realmente não abriu a porta ou nós sequer batemos?

Nem toda porta fechada foi fechada por Deus. Algumas nunca foram tocadas. Permaneceram diante de nós enquanto esperávamos uma confirmação sobrenatural para uma responsabilidade que já estava claramente revelada nas Escrituras.

Esperamos um sinal para obedecer ao que Deus já ordenou.

Esperamos sentir paz para fazer o que é certo.

Esperamos certeza absoluta para dar um passo que exige fé.

Esperamos que a porta se abra sozinha, como se obediência fosse um mecanismo automático e não uma resposta consciente ao chamado de Deus.

Espiritualizando a passividade

Existe uma diferença entre esperar em Deus e esconder-se atrás de Deus.

A espera bíblica não é inércia. Ela não significa ficar imóvel, aguardando que todas as circunstâncias se tornem favoráveis. Esperar em Deus é continuar fiel enquanto a resposta não chega. É caminhar sem controlar o caminho inteiro. É obedecer mesmo sem possuir todos os detalhes.

Abraão saiu sem saber exatamente para onde ia.

Pedro precisou sair do barco antes de experimentar o impossível.

Os sacerdotes precisaram colocar os pés no Jordão antes que as águas se abrissem.

Neemias orou, mas também conversou com o rei, pediu autorização, reuniu recursos, avaliou os muros e organizou trabalhadores.

A fé bíblica nunca foi uma desculpa para a paralisia. Pelo contrário: ela frequentemente exige movimento antes da evidência.

Entretanto, nós criamos uma espiritualidade em que só agimos depois que Deus remove todas as incertezas. Queremos que Ele abra a porta, acenda as luzes, estenda o tapete, envie uma confirmação, elimine os riscos e ainda garanta o resultado.

Isso não é fé.

É tentativa de controle com linguagem religiosa.

“Batei, e abrir-se-vos-á”

Jesus disse:

“Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á.”
— Mateus 7:7

Observe os verbos: pedir, buscar e bater.

Todos exigem participação.

Pedir pressupõe reconhecer a necessidade.

Buscar pressupõe movimento.

Bater pressupõe aproximação, intenção e coragem.

A promessa não foi dirigida aos que contemplam a porta de longe. Foi dada aos que se aproximam dela.

Muitas vezes afirmamos que Deus não respondeu, mas não perseveramos em oração. Dizemos que não encontramos, mas não buscamos com profundidade. Declaramos que a porta permaneceu fechada, mas não tivemos coragem de bater.

Desejamos respostas sem perguntas sinceras.

Direção sem caminhada.

Oportunidade sem exposição.

Fruto sem semeadura.

Testemunho sem risco.

Queremos atravessar portas pelas quais não tivemos disposição nem sequer de nos aproximar.

O medo disfarçado de prudência

A prudência é uma virtude bíblica. O medo disfarçado de prudência, porém, é outra coisa.

A prudência avalia riscos para obedecer com sabedoria.

O medo utiliza os riscos como justificativa para não obedecer.

A prudência pergunta: “Como devo agir?”

O medo pergunta: “Como posso evitar agir?”

Às vezes dizemos que estamos “esperando em Deus”, quando, na verdade, estamos esperando que o medo desapareça. Mas a coragem bíblica não é ausência de medo. É fidelidade apesar dele.

Josué não recebeu a promessa de que nunca sentiria temor. Recebeu uma ordem:

“Sê forte e corajoso.”
— Josué 1:9

A coragem foi necessária porque havia obstáculos reais. Se tudo estivesse garantido aos olhos humanos, coragem não seria necessária.

Talvez você não tenha batido porque teme ouvir “não”.

Talvez não tenha iniciado porque teme fracassar.

Talvez não tenha conversado porque teme ser rejeitado.

Talvez não tenha servido porque teme não ser reconhecido.

Talvez não tenha obedecido porque teme perder o controle da própria história.

Então, para preservar a imagem de alguém espiritual, você chama o medo de “direção de Deus”.

Mas nem sempre Deus está fechando a porta. Algumas vezes, Ele está esperando que você pare de chamar covardia de discernimento.

Portas não substituem princípios

Nossa geração tornou-se obcecada por “portas abertas”.

Se algo acontece facilmente, dizemos que veio de Deus. Se exige esforço, resistência ou perseverança, imaginamos que não seja da vontade divina.

Essa lógica, porém, não encontra sustentação nas Escrituras.

Paulo escreveu:

“Uma porta grande e oportuna para o trabalho se me abriu; e há muitos adversários.”
— 1 Coríntios 16:9

A porta estava aberta, mas havia adversários.

A presença de oposição não significava ausência de direção.

A dificuldade não anulava a oportunidade.

A resistência não provava que Deus havia fechado o caminho.

Talvez tenhamos confundido porta aberta com caminho fácil. Mas muitas portas abertas por Deus conduzem a territórios de confronto, crescimento, renúncia e dependência.

A porta certa nem sempre é a mais confortável.

A vontade de Deus nem sempre preserva nossa reputação.

A obediência nem sempre produz resultados rápidos.

Por isso, não devemos discernir a direção de Deus apenas pelas circunstâncias. Devemos examiná-la à luz dos princípios bíblicos.

Se a Escritura ordena perdoar, você não precisa esperar uma “porta aberta” para perdoar.

Se a Escritura ordena servir, você não precisa de uma revelação extraordinária para começar.

Se alguém precisa ouvir a verdade em amor, talvez a porta já esteja diante de você.

Se você possui recursos para ajudar, talvez a oportunidade não precise de mais confirmação.

Se Deus já falou em sua Palavra, insistir em novos sinais pode ser apenas uma forma sofisticada de adiar a obediência.

Quando Deus fecha de verdade

É claro que Deus pode fechar portas.

Paulo e seus companheiros foram impedidos pelo Espírito de anunciar a Palavra em determinadas regiões, conforme Atos 16. Houve direção divina específica, redirecionando-os para outro campo.

Mas perceba: eles foram impedidos enquanto caminhavam.

A direção surgiu durante o movimento.

Eles não ficaram imóveis esperando um mapa completo. Agiram, planejaram, viajaram e, no percurso, foram corrigidos.

Deus também guia por meio de portas fechadas, mas muitas vezes só encontramos essas portas quando estamos avançando.

Há pessoas esperando que Deus revele o próximo passo enquanto se recusam a dar o passo que já conhecem.

Querem conhecer a cidade de destino, mas não deixam a casa.

Querem saber o final da história, mas não iniciam o primeiro capítulo.

Querem garantia de sucesso, enquanto Deus pede apenas fidelidade.

Uma porta verdadeiramente fechada não é fracasso. Pode ser proteção, redirecionamento ou preparação. Mas uma porta intocada não pode ser chamada de direção divina. Ela permanece apenas como testemunha da nossa hesitação.

A teologia da tentativa

No ambiente cristão, às vezes tratamos a tentativa como falta de espiritualidade. Como se pessoas maduras nunca errassem decisões, nunca precisassem corrigir rotas e nunca enfrentassem resultados inesperados.

Contudo, a maturidade não consiste em nunca dar passos equivocados. Consiste em permanecer sensível à correção de Deus.

Pedro tentou caminhar sobre as águas e afundou. Ainda assim, foi o único discípulo que saiu do barco.

Os outros permaneceram seguros, mas também permaneceram distantes da experiência.

É possível fracassar tentando obedecer. Também é possível parecer prudente enquanto se enterra um talento.

Na parábola dos talentos, o servo repreendido não perdeu o recurso em uma tentativa malsucedida. Ele simplesmente o enterrou.

Seu pecado não foi a ousadia.

Foi a omissão.

Ele preferiu preservar o que possuía a correr o risco de utilizá-lo.

E sua justificativa estava enraizada em uma visão distorcida do senhor:

“Tive medo e escondi na terra o teu talento.”
— Mateus 25:25

O medo produz sepulturas para dons que deveriam gerar frutos.

Quantos projetos estão enterrados?

Quantas palavras nunca foram ditas?

Quantos chamados foram adiados?

Quantos talentos permanecem protegidos, porém improdutivos?

Depois, diante da esterilidade, dizemos:

“Deus não abriu a porta.”

Deus não é responsável por nossa negligência

Existe uma arrogância sutil em atribuir a Deus tudo aquilo que não fizemos.

Não oramos, mas dizemos que Ele não respondeu.

Não estudamos, mas afirmamos que Ele não nos capacitou.

Não nos preparamos, mas alegamos que a oportunidade não veio.

Não nos apresentamos, mas reclamamos que ninguém nos viu.

Não plantamos, mas questionamos por que não houve colheita.

Não reconciliamos, mas dizemos que Deus não restaurou.

Não servimos, mas lamentamos não ter propósito.

Deus é soberano, mas sua soberania não transforma nossa negligência em virtude.

A graça não elimina responsabilidade. Ela nos capacita a responder.

Paulo declarou:

“Pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles.”
— 1 Coríntios 15:10

A graça não o tornou passivo.

A graça o colocou em movimento.

A verdadeira confiança em Deus não produz acomodação. Produz coragem para trabalhar sem transformar o trabalho em idolatria. Produz disposição para agir sem imaginar que o resultado depende exclusivamente de nós.

Nós batemos.

Deus decide como responder.

Nós plantamos.

Deus dá o crescimento.

Nós obedecemos.

Deus conduz a história.

A porta pode ser você

Talvez uma reflexão mais incômoda seja esta: enquanto você espera que uma porta se abra, alguém pode estar esperando que você se abra a porta.

Você espera uma oportunidade para servir, mas alguém precisa que você tome uma iniciativa.

Você espera uma confirmação para encorajar, mas alguém está quase desistindo.

Você espera sentir-se pronto para ensinar, mas alguém precisa do que você já aprendeu.

Você espera recursos maiores para ajudar, mas aquilo que já possui pode aliviar a dor de alguém.

Você espera que Deus faça alguma coisa, enquanto Deus pode estar chamando você para fazer parte da resposta.

Em algumas situações, a porta não é uma oportunidade que surgirá diante de você.

É um caminho que será aberto através da sua concordância.

Foi assim com Moisés diante do mar.

Foi assim com Ester diante do rei.

Foi assim com Neemias diante dos muros.

Foi assim com os discípulos diante da multidão famosa.

Eles poderiam sugerir para a impossibilidade. Em vez disso, foram chamados a oferecer o que tinham e agir sob a direção de Deus.

Bata antes de concluir Antes de dizer que Deus não abriu a porta, pergunte:

Eu orei com perseverança?

Busquei conselho sábio? Examinei as Escrituras? Prepare-me especificamente?

Tomei alguma iniciativa?

Conversei com as pessoas certas?

Enfrentei o medo?

Aceitei a possibilidade de ouvir um “não”?

Estou esperando de direção aquilo que pode ser apenas comodismo?

A fé não exige irresponsabilidade. Ela exige disponibilidade. Nem toda porta deve ser atravessada. Alguns devem ser evitados. Outras serão claramente fechadas.

Mas não podemos continuar atribuindo a Deus portas que permanecem intocadas pela nossa falta de coragem.

Talvez a resposta divina esteja do outro lado de uma conversa difícil.

Talvez o crescimento seja depois de uma tentativa imperfeita.

Talvez o chamado comece com uma pequena iniciativa.

Talvez a porta não esteja trancada.

Talvez você apenas tenha um ponto permanente diante dela,esperando que sua presença fosse suficiente para que ela se abrisse.

Fé que se aproxima Deus continua abrindo portas.

Também continua fechando algumas.

Entretanto, Ele não prometeu direção uma vida construída sobre desculpas espirituais.

A fé se aproxima.

A fé pede.

A fé busca.

A fé bate.

A fé também aceita quando a resposta é “não”, mas não utiliza a possibilidade da negativa como desculpa para nunca tentar.

É mais confortável dizer que Deus não abriu a porta do que presumimos que tivemos medo de bater. Mas a honestidade é o começo da transformação.

Talvez hoje você não precise de uma nova revelação.




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