Silêncio do Acusador

Há uma cena pouco explorada nas Escrituras que desmonta nossas caricaturas sobre o mal e, ao mesmo tempo, expõe nossa fragilidade espiritual. Em Zacarias 3:1, o profeta vê Josué, o sumo sacerdote, diante do tribunal celestial. À sua direita, não está um advogado de defesa. Está Satanás. O Acusador. O promotor incansável. Aquele que sabe exatamente onde apertar.

Curiosamente, Satanás não inventa mentiras nessa cena. Ele aponta fatos. Roupas sujas. Um sacerdote indigno. Um líder que carrega as marcas reais do pecado de um povo inteiro. A acusação é tecnicamente correta. Moralmente impecável. Teologicamente cruel.

E é aqui que a perspectiva menos comum emerge: o maior perigo da acusação não é a mentira, mas a verdade sem redenção.

Satanás não precisa distorcer quando pode expor. Ele não precisa gritar quando pode sussurrar culpa. Ele não nega a santidade de Deus; ele a usa contra nós. Seu método é simples e devastador: transformar consciência em condenação, arrependimento em paralisia, pecado confessado em sentença eterna.

O texto, porém, não gira em torno do Acusador. Ele gira em torno da resposta divina.

Antes que Josué diga qualquer coisa — antes de se defender, se explicar ou prometer melhorar — o Senhor intervém. Deus não debate com Satanás. Não negocia provas. Não abre espaço para contraditório. Ele simplesmente repreende o Acusador e redefine o processo: “Não é este um tição tirado do fogo?”

A defesa de Deus não se baseia na performance de Josué, mas na eleição graciosa. Não na limpeza das vestes, mas na decisão soberana de purificar. Deus manda trocar as roupas sujas por vestes limpas e coloca uma mitra pura sobre sua cabeça. O acusado não é absolvido porque era inocente, mas porque foi restaurado.

Isso confronta nossa espiritualidade moderna, obcecada por autojustificação. Tentamos silenciar Satanás sendo melhores. Mais santos. Mais disciplinados. Mas o texto revela algo desconfortável: o silêncio do Acusador não vem da nossa melhora, vem da intervenção divina.

Enquanto Satanás acusa de fora, muitas vezes nós assumimos seu trabalho por dentro. Repetimos sua voz, espiritualizamos a culpa e chamamos isso de zelo. Esquecemos que há diferença entre convicção e condenação. A primeira nos leva ao arrependimento. A segunda nos afasta da presença de Deus.

Zacarias 3 nos lembra que o centro da fé não é um réu impecável, mas um Advogado fiel. Um Deus que não nega nossa sujeira, mas se recusa a nos definir por ela. Um Senhor que não remove o Acusador porque ele está errado, mas porque a graça falou mais alto.

No fim, Satanás continua sendo o Acusador. Esse é o papel dele. A pergunta decisiva não é se há acusações — elas existem —, mas quem tem a palavra final no tribunal.

E segundo Zacarias, não é o inimigo.
É o Deus que purifica.

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