Progresso Automático

O que é já foi, e o que há de ser também já foi; e Deus pede conta do que passou” (Eclesiastes 3:15).

Vivemos como se o tempo fosse um rio desgovernado, arrastando tudo para longe — decisões, culpas, promessas, pecados. Dizemos: “isso já passou”, como se o passado tivesse o poder de nos absolver. Mas Eclesiastes nos confronta com uma verdade desconfortável: o tempo pode passar para nós, mas nada passa por Deus.

Deus não é refém da cronologia. Ele não perde eventos no esquecimento, nem deixa histórias se dissolverem no acaso. O texto não diz que Deus revive o passado por nostalgia, mas que Ele o chama de volta para prestação de contas. O que foi vivido continua teologicamente ativo.

Essa afirmação desmonta dois mitos modernos.

O primeiro é o mito do progresso automático: a ideia de que o simples avançar do tempo nos torna melhores. Eclesiastes diz o oposto. O ciclo se repete. Os erros retornam. As estruturas de injustiça reaparecem com novas roupagens. O ser humano muda a estética, mas preserva o coração.

O segundo mito é o da impunidade temporal: a crença de que o silêncio de Deus é indiferença. Mas o texto sugere outra coisa: o silêncio pode ser apenas adiamento, não esquecimento. Deus “pede conta” — não com pressa, mas com precisão.

Há algo profundamente provocador aqui: se Deus chama o passado à tona, então arrependimento não é viver preso ao que foi, mas permitir que Deus ressignifique o que foi. O evangelho não apaga a história; ele a redime. A cruz não nega o passado — ela o confronta e o transforma.

Eclesiastes 3:15 também desmonta nossa obsessão pelo “novo”. Tendências, discursos, movimentos, até espiritualidades… muitas vezes são apenas repetições batizadas de inovação. O texto nos lembra: o que se apresenta como novidade talvez seja apenas o antigo que se esqueceu de pedir perdão.

No fim, essa palavra não é ameaça, é graça. Porque o mesmo Deus que pede conta do que passou é o Deus que oferece misericórdia no presente. O tempo não nos salva. O esquecimento não nos cura. Mas Deus, soberano sobre o ontem, o hoje e o amanhã, nos chama à verdade para nos conduzir à vida.

O passado não está morto. Ele está diante de Deus.
E isso muda tudo.

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