Neutralidade Confortável

Jesus olha para a multidão e não a compara com soldados, nem com trabalhadores, nem com pecadores notórios. Ele escolhe algo mais desconcertante: crianças birrentas na praça. Crianças que reclamam do tom, da música, do ritmo — mas nunca entram na brincadeira.

“Não dançamos quando tocaste flauta.
Não choramos quando entoaste lamento.”

Não é falta de convite.
É falta de disposição.

A praça, no mundo antigo, era o centro da vida pública. Hoje ela mudou de endereço: feeds, timelines, comentários, púlpitos virtuais. A geração continua sentada, opinando sobre tudo, mas comprometida com quase nada. Sempre há uma crítica pronta, raramente uma entrega verdadeira.

João Batista veio com jejum — disseram que era exagerado.
Jesus veio com mesa e vinho — disseram que era permissivo.

O problema nunca foi o mensageiro.
Era o coração que só sabe avaliar, mas não sabe obedecer.

Essa geração não rejeita Deus frontalmente. Ela o analisa. Mede. Classifica. Dá nota. Consome espiritualidade como quem escolhe uma playlist: pula o que confronta, repete o que agrada. Quer um Deus que dance conforme a música que ela escolheu — e chore apenas quando isso for conveniente.

O texto é provocador porque revela algo incômodo:
há gente que ama o discurso, mas odeia a transformação.
Ama o som da flauta, mas não suporta mudar o passo.
Reconhece o lamento, mas se recusa a rasgar o coração.

Jesus denuncia uma fé infantil — não no sentido da simplicidade, mas da imaturidade crônica. Uma fé que exige sinais, estilos, formatos… mas nunca responde com arrependimento, fé e seguimento.

Talvez o maior juízo desse texto não seja a rejeição explícita, mas a neutralidade confortável. Gente que está sempre na praça, sempre observando, sempre comentando — e sempre fora da dança do Reino.

A pergunta permanece ecoando, atravessando séculos até chegar a nós:
com que se parece esta geração?

Talvez com uma igreja que canta, mas não se move.
Que discerne, mas não se rende.
Que opina, mas não segue.

No fim, o Reino não é para quem escolhe a música.
É para quem entra na dança, mesmo quando o ritmo confronta, expõe e transforma.

Porque o problema nunca foi a flauta.
Nem o lamento.
Foi a recusa em levantar da praça.

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