A primeira coisa que Deus cria não é o sol.
É a luz.
Gênesis desmonta nossa lógica moderna já no primeiro capítulo. Antes de astros, calendários e relógios, há uma palavra que rasga o caos: “Haja luz.” A ordem nasce antes dos instrumentos que a medem. O sentido vem antes das estruturas que tentam explicá-lo.
Isso é provocador. Vivemos como se a luz dependesse do sistema. Como se só houvesse clareza quando tudo estivesse organizado, nomeado, validado. Mas Deus acende a luz quando ainda não existe sol algum para justificá-la. Ele separa luz e trevas antes de nos oferecer meios para controlar o tempo.
A luz, em Gênesis 1:3–5, não é apenas física. É direcional. Ela cria distinção. Dá contorno ao mundo. Estabelece limites. A luz não elimina as trevas — ela as separa. Nem tudo precisa ser destruído; algumas coisas precisam apenas ser colocadas no lugar certo.
Só depois, em Gênesis 1:14–18, Deus cria o sol, a lua e as estrelas. Não como deuses, mas como servidores. Eles governam o dia e a noite, não como fontes absolutas de sentido, mas como marcadores do tempo. O texto é sutilmente subversivo: aquilo que muitas culturas adoravam, a Bíblia rebaixa a ferramentas. O sol não reina; ele obedece.
Primeiro, Deus ilumina. Depois, Ele organiza o tempo para quem vive nessa luz.
Paulo parece ter entendido isso quando escreve aos coríntios: “Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, é quem resplandeceu em nossos corações.” (2 Co 4:6). A mesma voz que falou no início do mundo fala, agora, dentro do ser humano. A criação externa encontra sua continuidade na recriação interior.
Isso muda tudo.
Não é o conhecimento que gera luz; é a luz que torna o conhecimento possível. Não é o controle do tempo que produz sentido; é o sentido que nos ensina a viver o tempo. Por isso, tantas agendas estão cheias e tantos corações continuam escuros. Temos muitos sóis — compromissos, metas, telas, notificações — mas pouca luz verdadeira.
Deus ainda começa do mesmo jeito.
Ele não rearruma primeiro.
Ele ilumina.
A pergunta não é se você tem sol suficiente na sua vida.
A pergunta é se a luz já foi acesa.
Porque quando Deus diz “Haja luz”, não é apenas o mundo que muda.
É a forma como passamos a enxergar tudo.