Mateus 1:6 poderia ser apenas mais uma linha numa lista de nomes antigos. Mas não é.
Ali, no meio da genealogia de Jesus, surge uma frase desconcertante:
“Davi gerou Salomão, da mulher de Urias.”
Mateus poderia ter escrito “Bate-Seba”. Não escreveu.
Poderia ter suavizado a história. Não suavizou.
Ele escolheu lembrar o pecado, a violência, a injustiça — e ainda assim, apontar para Cristo.
Isso não é descuido literário. É teologia profunda.
A genealogia de Jesus não é um currículo moral impecável. É um prontuário humano. Há reis fiéis e reis corruptos. Há promessas e fracassos. Há fé e abuso de poder. E Mateus faz questão de dizer: o Messias vem de uma história quebrada.
“Mulher de Urias” não é apenas uma referência conjugal. É um lembrete incômodo.
Lembra que houve adultério.
Lembra que houve morte encoberta.
Lembra que o trono de Davi não foi construído apenas com salmos, mas também com sangue inocente.
Essa é a tensão que o texto nos obriga a encarar:
o problema de Davi não começou no terraço, começou no descanso fora de hora.
A queda não nasce do desejo, nasce da desconexão com a missão.
E ainda assim — Cristo vem dessa linha.
Aqui está a provocação: Deus não edita a história para parecer mais santo.
Ele não apaga os erros do passado para proteger Sua imagem.
Ele assume a bagunça humana e a atravessa com redenção.
Isso confronta nossa espiritualidade higienizada.
Gostamos de testemunhos limpos, trajetórias coerentes, histórias com começo, meio e fim organizados. Mas Mateus nos lembra que o Evangelho não nasce da perfeição — nasce da graça.
Jesus não vem de uma linhagem ideal.
Ele vem de uma linhagem real.
Isso muda tudo.
Porque se Deus não teve vergonha de associar Seu Filho a Davi e à mulher de Urias, talvez Ele também não tenha vergonha de se associar à sua história. Com suas falhas, escolhas erradas, capítulos que você preferia esquecer.
Mateus 1:6 nos ensina algo desconfortável e libertador:
Deus não redime apesar da história — Ele redime através da história.
O escândalo não é que haja pecado na genealogia de Jesus.
O escândalo é que Deus escolheu entrar nela.
E se Cristo nasce de uma árvore com raízes tortas, talvez o seu passado não seja o fim da sua vocação — mas o lugar onde a graça começa a escrever algo novo.