Confusão do Desejo

“O que você quer que Eu faça?” (Mc 10:51)

Quando Deus faz perguntas que desmontam nossas desculpas

Jesus para.
O barulho da multidão continua, os discípulos estão apressados, o caminho para Jerusalém é urgente. Mesmo assim, Ele interrompe tudo por um cego à beira da estrada. E então vem a pergunta desconcertante:

“O que você quer que Eu faça?”

À primeira vista, parece óbvio demais.
Ele é cego. O que mais poderia querer?

Mas Jesus não trabalha com obviedades. Ele trabalha com verdade.

A pergunta que expõe mais do que a cegueira

Bartimeu não era apenas um homem sem visão; era alguém acostumado à margem, dependente, invisível para quase todos. E Jesus poderia simplesmente curá-lo sem dizer uma palavra. Mas não o faz. Porque há algo mais profundo do que a falta de visão física: a confusão do desejo.

Nem sempre sabemos o que realmente queremos.
Às vezes queremos alívio, não transformação.
Queremos solução rápida, não um novo caminho.
Queremos um milagre que nos deixe confortáveis, não um chamado que nos coloque de pé.

A pergunta de Jesus não busca informação. Ela provoca autoconfronto.

Quando Deus pergunta, Ele nos responsabiliza

“O que você quer que Eu faça?” não é apenas uma pergunta pastoral; é uma pergunta perigosa. Porque obriga Bartimeu a assumir publicamente seu desejo. Ao responder, ele não pode mais se esconder atrás da multidão, da esmola ou da rotina da sobrevivência.

“Mestre, que eu torne a ver.”

Essa resposta muda tudo.
Ver significa caminhar.
Ver significa trabalhar.
Ver significa seguir Jesus no caminho — e não mais ficar à margem dele.

Jesus não cura para manter pessoas confortáveis na beira da estrada. Ele cura para colocá-las no caminho.

O silêncio que precede a resposta

Talvez o texto nos incomode porque revela algo sobre nós. Oramos muito, mas raramente paramos para responder honestamente a essa pergunta. Preferimos discursos prontos, frases espirituais genéricas, pedidos vagos. Jesus, porém, insiste na especificidade.

Ele não força desejos.
Ele não impõe curas.
Ele pergunta.

E essa pergunta ecoa até hoje, atravessando nossos cultos, nossas rotinas religiosas e nossas orações automáticas:

— O que você quer que Eu faça de verdade?

Fé que fala, não fé que murmura

Bartimeu grita antes. Mas agora ele fala com clareza. Fé não é só insistência; é clareza diante de Deus. Ele não pede dinheiro, não pede proteção, não pede vingança contra quem o mandava calar. Ele pede visão. E quem pede visão precisa estar disposto a ver o que antes evitava.

Talvez por isso muitos prefiram continuar cegos — não por falta de poder divino, mas por medo do que a visão exige.

Uma pergunta que ainda nos segue

O texto termina com Bartimeu seguindo Jesus pelo caminho. Curado, sim. Mas sobretudo reposicionado. A pergunta de Jesus não apenas abriu seus olhos; mudou sua direção.

E agora, a pergunta não está mais na boca de Jesus apenas — ela está diante de nós.

Se Ele parasse hoje e perguntasse:
“O que você quer que Eu faça?”

Você saberia responder?
Ou o silêncio revelaria que você tem mais medo da mudança do que da cegueira?

Porque quando Jesus pergunta, não é para nos constranger.
É para nos tirar da margem e nos chamar para o caminho.

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