Alma Adulta

Existe um tipo de maturidade que adoece a alma.
Ela se veste de autonomia, chama dependência de fraqueza e confunde fé com ingenuidade. É a maturidade que não sabe descansar.

Vivemos dias em que ser “adulto” virou sinônimo de controle total: controle das emoções, das narrativas, do futuro, da própria dor. A alma, então, deixa de ser crente e passa a ser gerente. Planeja tudo, calcula tudo, vigia tudo — e, no fim, não confia em nada.

O Salmo 131 oferece um escândalo espiritual para essa geração cansada:

“Minha alma é como criança amamentada.”

Não é uma alma em treinamento.
Não é uma alma em progresso.
É uma alma que parou de lutar.

A alma que luta demais

A alma humana é inquieta porque acredita que pode existir sem fonte. Quando se desconecta do Pai, ela entra num ciclo violento: luta contra a realidade, tenta dobrar o mundo às próprias fantasias e se alimenta de expectativas que ela mesma fabrica.

Essa alma batalha nos tatames da fé. Não luta contra o pecado apenas — luta contra a ideia de que Deus é bom. Questiona o amor do Pai, suspeita do seu silêncio e transforma o sofrimento em prova de abandono divino.

E quanto mais vence essas batalhas internas, mais endurece.
A vitória da alma autossuficiente é sempre uma derrota disfarçada.

Perder a alma, nesse sentido, não é deixá-la fraca — é torná-la dura.
Forte demais para confiar.
Rígida demais para descansar.
Orgulhosa demais para ser criança.

A infância que salva

A criança do Salmo 131 não é ingênua; é segura.
Ela não entende tudo, mas sabe quem a sustenta.

Ser alma crente não é negar o caos, a dor ou a complexidade da vida. É atravessar tudo isso sem permitir que o sofrimento destrua a confiança básica no Pai. É chegar ao fim do dia sem respostas completas, mas com o coração aquietado.

A verdadeira fé não é barulhenta.
Ela não precisa gritar teorias sobre o silêncio de Deus.
Ela repousa.

Enquanto o mundo ensina a alma a se tornar grande, Deus a convida a se tornar pequena. Não por regressão espiritual, mas por redenção da confiança.

O descanso como ato de resistência

Num tempo em que todos precisam provar algo, descansar é um ato profético. Aquietar a alma é um protesto contra a mentira de que tudo depende de nós.

Toda alma que se reconhece criança no colo do Pai pode até lutar durante o dia, enfrentar crises, carregar histórias difíceis — mas chega viva ao final. Não porque venceu tudo, mas porque não se perdeu de si mesma.

Essa é a alma crente:
não a que entende tudo,
mas a que confia apesar de tudo.

E talvez o maior sinal de maturidade espiritual hoje não seja saber explicar Deus — mas conseguir repousar nele.

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