Uma leitura provocativa de Marcos 6:1-6
O texto de Marcos 6:1-6 nos confronta com uma afirmação desconcertante: Jesus, o Filho de Deus, “não pôde fazer ali nenhum milagre, senão curar alguns poucos enfermos”.
Como assim não pôde?
Estamos falando daquele que acalmou o mar, multiplicou pães, expulsou legiões. O mesmo que, em capítulos anteriores, demonstrou autoridade sobre natureza, demônios e morte. E agora… limitado?
A cena acontece em Nazaré — sua terra, seu povo, sua história. Não é em território pagão. Não é entre inimigos declarados. É entre conhecidos. Gente que viu Jesus crescer.
E é exatamente aí que o milagre encontra resistência.
A Familiaridade que Neutraliza
Eles dizem: “Não é este o carpinteiro?”
Não é o Messias.
Não é o Filho de Deus.
É o carpinteiro.
O problema não era falta de poder. Era excesso de explicação.
Quando você acha que já entendeu alguém completamente, você deixa de esperar algo extraordinário dele. Nazaré não rejeitou o poder de Jesus por ignorância; rejeitou por familiaridade.
O extraordinário se tornou comum.
O sagrado virou rotina.
O eterno virou “filho de Maria”.
E onde tudo é explicado, nada é esperado.
A Incapacidade que Revela um Princípio Espiritual
O texto não sugere impotência divina, mas resistência humana. A incredulidade cria um ambiente onde o milagre não floresce.
Não porque Deus perca poder.
Mas porque a fé é o solo onde o poder se manifesta.
Há uma diferença entre Deus poder fazer e Deus agir. O agir, muitas vezes, encontra barreira no coração fechado.
A incredulidade não anula a divindade — mas impede a experiência.
“Apenas” Alguns Enfermos
O texto diz que Ele curou “alguns poucos enfermos”.
Perceba a ironia.
O que para nós já seria extraordinário — curar alguns enfermos — para o texto é quase uma nota de rodapé.
Isso revela algo profundo: mesmo em ambiente hostil, a graça ainda encontra brechas. Sempre há alguns que creem. Sempre há um resto que se aproxima.
A incredulidade coletiva não impede totalmente a ação de Deus, mas reduz sua manifestação pública.
Quando Conhecer Demais Impede Crer
Nazaré conhecia o Jesus histórico, mas não reconheceu o Cristo eterno.
E aqui está o perigo contemporâneo:
Temos acesso a sermões, podcasts, teologia, debates. Conhecemos os termos. Sabemos as histórias. Mas será que ainda esperamos o impossível?
Podemos frequentar igrejas, estudar Escrituras e, ainda assim, viver como Nazaré:
próximos o suficiente para ouvir,
distantes demais para crer.
O Milagre que Começa na Honra
Jesus declara: “Um profeta não é desprezado senão na sua terra”.
Honra é o ambiente da fé.
Desprezo é o ambiente da esterilidade espiritual.
Quando tratamos o sagrado como comum, criamos uma atmosfera onde o extraordinário não se manifesta.
E talvez o maior milagre que Nazaré perdeu não foi a cura física — foi a oportunidade de reconhecer quem estava diante deles.
Cenário Decisivo
Se Jesus estivesse hoje em nossa comunidade, em nosso culto, em nossa rotina…
Ele encontraria fé?
Ou encontraria explicações?
Porque o poder não mudou.
Mas o coração continua sendo o cenário decisivo.
A incredulidade não destrói Deus.
Ela apenas nos impede de experimentar o que Ele deseja fazer.
E talvez o texto mais perturbador não seja que Ele “não pôde fazer ali milagre”…
Mas que Ele se admirou da incredulidade deles.
Que Ele não se admire da nossa.