Maturidade Real

Existe uma armadilha silenciosa que aparece depois do erro.

Você tenta. Não sai como imaginava. Algo dá errado. O resultado fica aquém do esperado. E então uma voz interior transforma um acontecimento em uma sentença:

“Eu errei, portanto não sou bom nisso.”

Esse é um dos caminhos da síndrome do impostor.

Mas existe outro caminho igualmente perigoso:

“Se não puder ficar perfeito, nem vale a pena fazer.”

É o perfeccionismo.

Um transforma o erro em identidade.
O outro transforma a excelência em uma exigência impossível.

E, entre os dois, muita gente fica paralisada.

Você não é o seu último resultado

Um trabalho ruim não significa que você é incompetente.

Uma mensagem que não funcionou não significa que você não sabe comunicar.

Um projeto que precisou ser refeito não significa que você fracassou.

Um erro revela alguma coisa sobre o que aconteceu, mas não determina automaticamente quem você é.

Pedro negou Jesus.

Davi pecou.

Moisés hesitou.

Marcos abandonou uma viagem missionária e, posteriormente, tornou-se útil novamente ao ministério de Paulo (At 15:37-39; 2Tm 4:11).

A Bíblia não constrói sua narrativa em torno de pessoas que nunca erraram. Ela mostra pessoas que foram confrontadas, corrigidas, amadurecidas e restauradas pela graça.

Errar pode fazer parte do processo sem se tornar a definição da pessoa.

Mas existe um erro do outro lado

Existe também a espiritualização da mediocridade.

“Deus conhece meu coração.”

“Ficou bom assim.”

“Não precisa melhorar.”

“É o que eu consegui fazer.”

Às vezes, essas frases escondem humildade.

Outras vezes, escondem acomodação.

Não somos chamados ao perfeccionismo, mas também não somos chamados à negligência.

Paulo escreve:

“Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor.”
Colossenses 3:23

Observe a diferença.

Fazer de todo o coração não significa fazer tudo perfeitamente.

Significa não tratar aquilo que Deus colocou diante de você com descaso.

Excelência não é perfeição

Talvez precisemos recuperar uma palavra que foi sequestrada pelo perfeccionismo:

excelência.

Excelência não é produzir algo impecável.

É olhar para aquilo que você fez e perguntar:

“O que ainda pode ser melhorado?”

Depois, melhorar.

E continuar.

Um vídeo pode não ficar perfeito e ainda assim ser bom.

Uma pregação pode não conter a frase perfeita e ainda alcançar alguém.

Um livro pode passar por revisões sem deixar de ser relevante.

Uma música pode precisar de ajustes antes de encontrar sua forma definitiva.

O primeiro rascunho não precisa ser o último.

O processo também faz parte da obra.

Há coisas que só conseguimos enxergar depois de colocar algo no mundo.

Você grava.

Assiste.

Percebe.

Corrige.

Lapida.

Publica.

Aprende.

Na próxima vez, faz melhor.

Isso não é fracasso.

Isso é maturidade.

Não transforme o imperfeito em desculpa

Existe uma diferença entre dizer:

“Não ficou perfeito, mas pode ser aprimorado.”

e dizer:

“Não ficou perfeito, então não vou fazer nada.”

A primeira frase abre espaço para crescimento.

A segunda transforma o padrão impossível em prisão.

Mas existe ainda uma terceira:

“Está bom de qualquer jeito.”

Essa também pode ser uma prisão.

Porque algumas pessoas não precisam vencer o perfeccionismo.

Precisam vencer a acomodação.

Precisam estudar mais.

Praticar mais.

Ouvir críticas.

Aceitar correções.

Recomeçar.

Lapidar.

Não porque seu valor dependa do resultado, mas porque fidelidade também aparece na maneira como tratamos aquilo que recebemos para fazer.

A graça não elimina o processo

A graça de Deus não diz:

“Você precisa ser perfeito.”

Mas também não diz:

“Não importa como você faça.”

A graça nos liberta tanto da necessidade de provar nosso valor quanto da desculpa de não crescer.

Em Cristo, você não precisa produzir para provar que merece existir.

Mas, justamente porque seu valor não depende da performance, você pode trabalhar sem o peso de ter que parecer perfeito.

Você pode errar sem desmoronar.

Pode receber correção sem sentir que sua identidade foi destruída.

Pode reconhecer uma deficiência sem concluir:

“Eu sou um fracasso.”

E pode olhar para algo que ficou bom e ainda perguntar:

“Como posso fazer melhor?”

Sem culpa.

Sem vaidade.

Sem obsessão.

O terceiro caminho

Talvez exista um lugar mais saudável entre:

“Eu preciso ser perfeito.”

e

“Está bom de qualquer jeito.”

Esse lugar se chama fidelidade.

Faça o melhor que você consegue hoje.

Aprenda o que ainda não sabe.

Corrija o que precisa ser corrigido.

Aceite que algumas coisas ficarão aquém do ideal.

E não confunda resultado com identidade.

Você não precisa entregar perfeição.

Mas também não precisa entregar descaso.

Não seja perfeccionista.
Não seja negligente.
Seja fiel.

Porque algumas coisas não precisam estar perfeitas para serem belas.

Precisam apenas estar vivas, honestas, bem cuidadas e em constante processo de aperfeiçoamento.

E talvez maturidade seja justamente isso:

parar de exigir perfeição de si mesmo sem usar a imperfeição como desculpa para permanecer igual.

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