Ainda Aqui

Deus não despreza corações quebrados.

Há dores que não aparecem em exames.

Não deixam marcas na pele, não exigem gesso, não produzem atestado médico. Mesmo assim, conseguem nos deixar sem forças para levantar da cama.

Uma despedida.

Uma rejeição.

Uma expectativa que morreu.

Uma oração que parece não ter sido respondida.

Uma pessoa que foi embora.

Um sonho que não aconteceu.

Uma versão de nós mesmos que não existe mais.

O coração humano pode continuar batendo enquanto, por dentro, alguma coisa parece ter parado.

E talvez uma das maiores crueldades da espiritualidade contemporânea seja transformar sofrimento em algo que o cristão precisa esconder.

Como se ter fé significasse estar sempre bem.

Como se confiar em Deus significasse nunca chorar.

Como se dizer “Deus está no controle” exigisse sorrir enquanto tudo dentro de nós está desmoronando.

Mas a Bíblia não apresenta esse tipo de espiritualidade.

O salmista não diz que Deus está perto dos que têm tudo resolvido.

Ele afirma:

“O SENHOR está perto dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito abatido.”
Salmos 34.18

Existe algo profundamente subversivo nessa afirmação.

Deus não se afasta da nossa fragilidade. Ele se aproxima.

O coração partido não precisa de maquiagem

Vivemos em uma época obcecada pela aparência.

Publicamos o sorriso.

Editamos a fotografia.

Selecionamos as melhores notícias.

Construímos narrativas nas quais parecemos estar avançando o tempo todo.

Até a dor ganhou estética.

Há frases bonitas sobre superação, vídeos sobre recomeços e discursos sobre resiliência.

Mas existe uma diferença enorme entre superar a dor e aprender a apresentá-la de maneira bonita.

Podemos nos tornar especialistas em parecer bem.

E, ainda assim, continuar quebrados.

A espiritualidade também pode ser usada como maquiagem.

“Está tudo bem.”

“Deus sabe o que faz.”

“Foi livramento.”

“Estou em uma nova fase.”

Talvez seja verdade.

Mas talvez seja apenas uma maneira religiosa de evitar dizer:

“Isso me machucou.”

E Deus não precisa da nossa performance.

Ele não precisa que organizemos emocionalmente aquilo que ainda está desorganizado.

Ele não exige que cheguemos diante dele com um coração apresentável.

Podemos chegar quebrados.

Podemos chegar confusos.

Podemos chegar cansados.

Podemos chegar sem respostas.

Podemos simplesmente chegar.

A dor não é sinal de abandono

Uma das mentiras mais perigosas que a dor produz é esta:

“Se Deus estivesse comigo, eu não estaria passando por isso.”

Mas a Escritura nunca prometeu uma vida sem sofrimento.

Cristo não prometeu ausência de tribulações.

A Bíblia está cheia de pessoas que amavam profundamente a Deus e, ainda assim, atravessaram vales, perdas, perseguições, fracassos e lágrimas.

José sofreu.

Davi chorou.

Elias desanimou.

Jó perdeu quase tudo.

Paulo foi perseguido.

Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro.

A fé bíblica nunca foi uma técnica para eliminar a dor.

Ela é uma realidade que nos ensina onde permanecer quando a dor chega.

Essa talvez seja uma das distinções mais importantes.

Deus não promete que nunca teremos o coração partido.

Ele promete não abandonar os que estão quebrantados.

Isso muda tudo.

Porque o sofrimento deixa de ser interpretado automaticamente como ausência de Deus.

Às vezes, o lugar em que mais sentimos nossa fragilidade pode se tornar justamente o lugar em que descobrimos a proximidade dele.

Existem dores que não precisam de explicação imediata

Nós queremos respostas.

De preferência rápidas.

Queremos saber:

Por que aconteceu?

Por que comigo?

Por que Deus permitiu?

O que Ele está fazendo?

Mas existe uma maturidade espiritual que aprende a permanecer diante de Deus mesmo quando algumas perguntas continuam sem resposta.

Nem toda ferida precisa primeiro de uma explicação.

Algumas precisam de presença.

Quando uma pessoa chora, nem sempre precisamos explicar sua lágrima.

Às vezes, precisamos simplesmente permanecer ao lado dela.

Talvez seja assim também com Deus.

Antes de encontrarmos uma explicação, podemos encontrar uma presença.

Antes de saber para onde a história está indo, podemos descansar naquele que nunca perdeu o controle da história.

Nem toda dor será explicada agora. Mas nenhuma dor precisa ser carregada sozinho.

O que você está tentando esconder de Deus?

Essa pergunta é desconfortável.

Porque existe uma diferença entre entregar uma dor a Deus e falar sobre ela com Deus.

Muitas vezes fazemos a segunda coisa, mas não a primeira.

Falamos:

“Senhor, estou triste.”

Mas continuamos controlando a tristeza.

“Senhor, fui ferido.”

Mas continuamos alimentando a ferida.

“Senhor, perdi.”

Mas continuamos tentando reconstruir aquilo que Ele talvez esteja nos ensinando a deixar ir.

Levar a dor a Deus não significa apenas contar o que aconteceu.

Significa permitir que Deus tenha acesso àquilo que aconteceu dentro de nós.

A raiva.

A frustração.

A saudade.

O medo.

A sensação de abandono.

A necessidade de respostas.

A vontade de desistir.

É aí que começa uma restauração mais profunda.

Porque Deus não quer apenas mudar nossas circunstâncias.

Ele quer tratar o coração que as circunstâncias revelaram.

Deus não conserta quem se esconde

Existe uma frase que merece permanecer:

Deus não restaura aquilo que insistimos em esconder.

Não porque Ele desconheça.

Ele conhece.

Mas porque restauração envolve entrega.

O coração ferido frequentemente constrói esconderijos.

Alguns se escondem no trabalho.

Outros, na produtividade.

Outros, em relacionamentos.

Outros, no entretenimento.

Outros, na religiosidade.

Alguns transformam a própria dor em identidade.

“Eu sou assim porque fizeram isso comigo.”

E, sem perceber, a ferida deixa de ser algo que carregamos e passa a ser algo que governa nossa vida.

Mas Cristo não veio apenas para nos ajudar a sobreviver às nossas feridas.

Ele veio para nos dar uma nova vida.

Isso não significa apagar nossa história.

Significa impedir que nossa história tenha a palavra final.

Talvez sua dor ainda não seja o fim

Existe algo estranho na maneira como Deus trabalha.

Aquilo que hoje parece apenas perda pode, no futuro, tornar-se matéria-prima para uma nova forma de adoração.

Não significa romantizar o sofrimento.

Não precisamos chamar de bom aquilo que foi doloroso.

Não precisamos agradecer pelo mal.

Não precisamos fingir que a ferida não existiu.

Mas podemos confiar que Deus é capaz de trabalhar até mesmo nas regiões da nossa história que gostaríamos de apagar.

José não escolheu o poço.

Davi não escolheu a perseguição.

Jó não escolheu a perda.

Mas Deus não abandonou nenhum deles no meio da história.

A dor pode marcar você.

Mas não precisa definir você.

O abandono pode ter acontecido.

Mas não significa que você esteja abandonado.

A porta pode ter fechado.

Mas isso não significa que Deus tenha encerrado sua história.

O coração pode ter quebrado.

Mas isso não significa que ele permanecerá quebrado para sempre.

O primeiro passo talvez seja simplesmente ir

Não precisamos esperar estar inteiros para nos aproximarmos de Deus.

Vamos do jeito que estamos.

Coração partido.

Expectativas frustradas.

Alma cansada.

Perguntas sem resposta.

Lágrimas escondidas.

Não espere melhorar para procurar Deus.

Procure Deus enquanto ainda dói.

Não espere entender para confiar.

Confie enquanto ainda não entende.

Não espere conseguir explicar sua história.

Coloque-a nas mãos daquele que conhece cada capítulo.

Porque talvez a oração mais espiritual que você possa fazer hoje não seja longa.

Talvez seja apenas:

“Senhor, eu estou quebrado. Mas estou aqui.”

E talvez isso seja suficiente para começar.

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