Há uma pergunta que quase sempre chega tarde:
“Afinal, para que estou vivendo?”
Não é uma pergunta necessariamente provocada pelo fracasso. Às vezes, ela nasce justamente depois de uma sequência de vitórias.
A carreira avançou.
A família foi construída.
Os boletos foram pagos.
Alguns sonhos foram realizados.
O nome ganhou reconhecimento.
E, mesmo assim, alguma coisa dentro de nós continua perguntando:
“É só isso?”
Talvez esse incômodo não seja ingratidão.
Talvez seja um convite.
O perigo de uma vida bem-sucedida, mas sem missão
Existe uma forma sofisticada de desperdício: ser muito bom em alguma coisa que não responde mais à pergunta “para quê?”
Podemos passar décadas aperfeiçoando ferramentas sem jamais perguntar qual obra estamos construindo.
Podemos aumentar o salário sem aumentar o significado.
Podemos ampliar a agenda e diminuir a alma.
Podemos conquistar influência e perder direção.
O problema não está necessariamente no sucesso.
O problema começa quando o sucesso se transforma no propósito.
Porque sucesso responde:
“Quanto consegui?”
Missão pergunta:
“Para que Deus me deu o que tenho?”
Essa mudança parece pequena, mas altera completamente a maneira de enxergar trabalho, dinheiro, relacionamentos, talentos e tempo.
Missão não é descobrir uma profissão
Essa talvez seja uma das perspectivas mais importantes.
Quando ouvimos “missão de vida”, frequentemente imaginamos uma profissão ideal, um grande projeto ou uma mudança radical de carreira.
Mas a missão pode ser muito mais profunda.
Profissão é aquilo que fazemos.
Missão é aquilo para o qual colocamos aquilo que somos a serviço.
Um advogado pode exercer sua missão através do direito.
Um empresário pode exercê-la através dos negócios.
Um professor pode exercê-la através da formação de pessoas.
Um médico pode exercê-la através do cuidado.
Um pastor pode exercê-la através do ministério pastoral.
A pergunta não é apenas:
“O que devo fazer?”
Talvez seja:
“Como aquilo que Deus colocou em mim pode servir ao que Deus deseja realizar através de mim?”
Isso confronta uma ideia religiosa bastante comum:
achar que servir a Deus exige abandonar aquilo que fazemos bem.
Nem sempre.
Às vezes, Deus não quer tirar você do seu campo.
Ele quer redimir a maneira como você joga dentro dele.
Seu talento pode ser uma pista
Há pessoas esperando uma revelação extraordinária enquanto ignoram aquilo que já está diante delas.
Talentos.
Experiências.
Paixões.
Competências.
Feridas.
Relacionamentos.
Oportunidades.
A história que Deus já escreveu em nós pode conter pistas sobre a missão que ainda precisamos discernir.
Duas perguntas especialmente úteis:
O que você realizou?
Isso revela competência.
Com o que você se importa profundamente?
Isso revela paixão.
A missão começa a aparecer quando essas duas dimensões se encontram.
Não basta perguntar:
“Do que eu gosto?”
Paixão sem competência pode produzir frustração.
Também não basta perguntar:
“No que sou bom?”
Competência sem paixão pode produzir uma vida eficiente e vazia.
A pergunta mais desconfortável talvez seja:
“Onde aquilo que faço bem encontra aquilo que realmente importa?”
Deus não desperdiça experiências
Existe outra perspectiva pouco explorada sobre missão:
talvez sua missão não comece do zero.
Ela pode ser construída sobre tudo aquilo que você viveu.
Sua carreira.
Seus fracassos.
As pessoas que conheceu.
Os problemas que aprendeu a resolver.
As habilidades que desenvolveu.
As portas que se abriram.
Até mesmo determinadas dores podem ampliar sua capacidade de servir.
O passado não precisa ser uma prisão.
Pode se tornar matéria-prima.
Isso muda a maneira de olhar para a segunda metade da vida.
Em vez de perguntar:
“O que ainda posso começar?”
talvez devêssemos perguntar:
“O que tudo aquilo que já vivi me preparou para entregar?”
Essa é uma pergunta de mordomia.
Do objetivo ao compromisso
Existe ainda uma mudança extremamente provocativa.
A vida pode ser organizada em torno de objetivos ou de compromissos.
Objetivos dizem:
“Quero chegar lá.”
Compromissos dizem:
“Quero permanecer fiel a isto.”
Objetivos podem ser alcançados e abandonados.
Compromissos moldam quem nos tornamos.
Por isso, na transição para uma mudança de organizar a vida predominantemente por objetivos para assumi-la em termos de compromissos.
Essa diferença é gigantesca.
Você pode estabelecer como objetivo:
“Ganhar mais dinheiro.”
Mas pode assumir o compromisso:
“Administrar fielmente os recursos que Deus colocou sob meus cuidados.”
Pode estabelecer:
“Ter sucesso profissional.”
Ou assumir:
“Usar minha competência para servir pessoas e honrar a Cristo.”
Pode estabelecer:
“Aposentar-me.”
Ou assumir:
“Entrar em uma nova estação de frutificação.”
A primeira linguagem pergunta:
“O que quero conquistar?”
A segunda pergunta:
“A quem quero permanecer fiel?”
Missão começa onde o ego termina
Existe uma armadilha espiritual perigosa:
transformar propósito em mais uma forma de realização pessoal.
Até a missão pode ser sequestrada pelo ego.
“Quero fazer algo extraordinário.”
“Quero deixar meu legado.”
“Quero impactar milhares.”
“Quero ser lembrado.”
Parece espiritual.
Mas ainda pode ser apenas ego usando vocabulário religioso.
A missão cristã não começa na pergunta:
“Como posso me tornar importante?”
Começa na pergunta:
“Como posso me tornar disponível?”
Jesus não chamou seus discípulos para construírem uma marca pessoal.
Chamou-os para segui-lo.
“Quem quiser vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.”
— Marcos 8:34
Missão cristã não é autopromoção espiritual.
É disponibilidade redimida.
Você não precisa ser outra pessoa
Uma das maiores violências que podemos cometer contra nossa própria vocação é tentar viver a missão de outra pessoa.
Comparação produz imitação.
Imitação produz artificialidade.
E artificialidade produz exaustão.
Você olha para alguém que prega e pensa que deveria pregar.
Olha para alguém que empreende e pensa que deveria empreender.
Olha para alguém que escreve e pensa que deveria escrever.
Olha para alguém que lidera milhares e conclui que sua vida é pequena.
Mas o Reino de Deus não funciona como uma competição de currículos.
Deus não precisa de uma segunda versão de outra pessoa.
Ele pode usar justamente aquilo que diferencia você.
A missão certa não precisa fazer você parecer extraordinário.
Ela precisa fazer você ser fiel.
E se sua missão estiver escondida naquilo que você já faz?
Talvez você não precise pedir a Deus uma nova vida.
Talvez precise aprender a enxergar a vida que já recebeu com novos olhos.
O empresário pode continuar sendo empresário.
O professor pode continuar ensinando.
O profissional pode continuar trabalhando.
O aposentado pode continuar aprendendo.
O líder pode continuar liderando.
A diferença está no centro.
Antes:
“Meu trabalho existe para sustentar minha vida.”
Depois:
“Minha vida inteira pertence a Deus, inclusive meu trabalho.”
Essa é uma mudança de cosmovisão.
Não é necessariamente uma mudança de endereço.
Uma missão precisa caber em poucas palavras
O texto propõe algo simples e profundo: tentar expressar a missão pessoal em uma ou duas frases.
Por quê?
Porque aquilo que não conseguimos dizer claramente provavelmente ainda não conseguimos enxergar claramente.
Experimente escrever:
“Minha missão de vida é usar ______ para servir ______, de modo que ______.”
Depois, não procure uma frase bonita.
Procure uma frase verdadeira.
Pergunte:
- O que faço extraordinariamente bem?
- O que me apaixona?
- Quem Deus colocou perto de mim?
- Quais problemas tenho capacidade de ajudar a resolver?
- O que minha experiência me ensinou?
- Que necessidades conseguem mobilizar meu coração?
- O que eu continuaria fazendo mesmo que ninguém aplaudisse?
- O que permaneceria importante se dinheiro e status deixassem de ser os critérios?
E então acrescente a pergunta que muda todas as outras:
“Como isso pode servir ao Reino de Deus?”
Missão não elimina a vida comum
Talvez essa seja uma das ideias mais libertadoras.
Missão não significa necessariamente fazer algo gigantesco.
O Reino de Deus também avança através do pequeno.
Uma conversa.
Uma empresa justa.
Um funcionário valorizado.
Um filho discipulado.
Um casamento preservado.
Um jovem orientado.
Um profissional formado.
Um vizinho amado.
Um recurso bem administrado.
Uma oportunidade compartilhada.
Uma pessoa restaurada.
O tamanho da missão não é determinado pelo tamanho da plataforma.
Deus mede fidelidade de maneira diferente do mercado.
Talvez você não esteja perdido. Talvez esteja disperso.
Essa distinção merece atenção.
Estar perdido significa não saber para onde ir.
Estar disperso significa ter energia, talento e recursos sendo consumidos por coisas demais.
E uma pessoa dispersa pode parecer extremamente produtiva.
Agenda cheia.
Calendário lotado.
Muitos projetos.
Muitas reuniões.
Muitos objetivos.
Pouco sentido.
Talvez o problema de algumas vidas não seja falta de oportunidade.
Seja excesso de oportunidades sem discernimento.
Missão funciona como um filtro.
Ela nos ensina a dizer:
“Isso é bom, mas não é meu.”
E talvez uma das maiores maturidades espirituais seja justamente essa:
aprender a abandonar coisas boas para permanecer fiel à coisa certa.
A missão precisa ser discernida diante de Deus
Há um processo de reflexão, oração, escrita, escuta e compartilhamento com pessoas próximas e confiáveis.
Isso é importante porque missão não deveria ser construída apenas pelo impulso.
Nem toda paixão é chamado.
Nem toda oportunidade é direção.
Nem todo sucesso é aprovação divina.
Nem toda frustração significa que precisamos mudar.
Discernimento exige tempo.
Silêncio.
Oração.
Escritura.
Conselho.
Autoconhecimento.
E disposição para ouvir aquilo que talvez não queiramos ouvir.
A oração mais perigosa pode ser:
“Senhor, mostra-me minha missão.”
Porque talvez Deus mostre.
E talvez a resposta custe alguma coisa.
A pergunta que fica
Imagine que você chegasse ao fim da vida.
Sem possibilidade de editar a história.
Sem oportunidade de acrescentar mais um capítulo.
Sem poder comprar mais tempo.
E alguém perguntasse:
“O que você fez com aquilo que recebeu?”
Não perguntaria quanto você acumulou.
Não perguntaria quantas reuniões participou.
Não perguntaria quantos seguidores teve.
Não perguntaria quantas metas bateu.
A pergunta seria muito mais simples:
“Você foi fiel?”
A missão de vida talvez seja menos sobre descobrir o que fazer com o resto da vida e mais sobre descobrir a quem pertence o resto da vida.
Quando isso muda, trabalho muda.
Dinheiro muda.
Tempo muda.
Sucesso muda.
Fracasso muda.
Relacionamentos mudam.
E até o futuro deixa de ser simplesmente uma extensão do passado.
O tempo ainda pode ser o mais frutífero
Você talvez tenha passado anos construindo competência.
Agora pode ser hora de transformá-la em contribuição.
Talvez tenha acumulado conhecimento.
Agora pode compartilhá-lo.
Talvez tenha conquistado recursos.
Agora pode administrá-los para algo maior.
Talvez tenha construído influência.
Agora pode usá-la para levantar outros.
Talvez tenha vivido tentando provar quem era.
Agora pode viver sabendo de quem é.
A missão não é uma desculpa para abandonar sua história.
É uma oportunidade de redimi-la.
Porque, no Reino de Deus, o objetivo final não é terminar a corrida com uma coleção impressionante de troféus.
É poder dizer:
“Corri a carreira, guardei a fé.”
— 2 Timóteo 4:7
E talvez seja exatamente aí que começa o verdadeiro segundo tempo:
quando deixamos de perguntar quanto ainda podemos conquistar e começamos a perguntar quanto ainda podemos entregar.