Todos acordamos esperando alguma coisa.
Esperamos que o dia seja tranquilo, que o dinheiro seja suficiente, que o diagnóstico seja favorável, que o casamento melhore, que os filhos façam boas escolhas, que o trabalho seja reconhecido e que as pessoas finalmente percebam nosso valor.
Até quem afirma não esperar mais nada ainda alimenta uma esperança: a de não ser decepcionado novamente.
A esperança não é um detalhe emocional da existência. Ela funciona como um sistema de direção. Nossas escolhas, preocupações, esforços e frustrações são conduzidos por aquilo que acreditamos que poderá tornar nossa vida segura, significativa e suportável.
Por isso, talvez a pergunta mais reveladora não seja:
“Você tem esperança?”
A pergunta verdadeira é:
“Onde você colocou sua esperança?”
Porque todos esperamos. A diferença está no altar sobre o qual depositamos nossas expectativas.
Toda esperança é uma forma de adoração
Quando colocamos nossa esperança em alguma coisa, não estamos apenas desejando que ela aconteça. Estamos atribuindo a ela um poder quase salvador.
Esperamos que o casamento cure nossa solidão.
Esperamos que o dinheiro silencie nossos medos.
Esperamos que o reconhecimento confirme nossa importância.
Esperamos que uma igreja perfeita elimine nossas frustrações.
Esperamos que uma mudança de cidade produza uma mudança de identidade.
Esperamos que o sucesso responda à pergunta que evitamos fazer diante de Deus: “Quem sou eu?”
Sem perceber, começamos a exigir das pessoas, das conquistas e das circunstâncias aquilo que somente Cristo poderia oferecer.
Pedimos que coisas temporárias nos deem paz permanente.
Pedimos que pessoas limitadas satisfaçam necessidades profundas.
Pedimos que resultados instáveis construam uma identidade inabalável.
Não é errado desejar um casamento saudável, estabilidade financeira, cura, oportunidades ou relacionamentos sinceros. O problema começa quando uma bênção deixa de ser recebida como presente e passa a ser tratada como salvadora.
Aquilo que acreditamos ser indispensável para nossa paz já começou a disputar o lugar de Deus em nosso coração.
Jeremias descreve dois tipos de pessoas. Uma faz da força humana sua segurança e se torna semelhante a um arbusto no deserto. A outra confia no Senhor e se parece com uma árvore plantada junto às águas, que continua produzindo mesmo quando o calor chega.
“Bendito o homem que confia no Senhor e cuja esperança é o Senhor.”
Jeremias 17:7
O texto não diz apenas que essa pessoa espera algo de Deus. Ele declara que o próprio Senhor é sua esperança.
Essa diferença muda tudo.
A decepção também pode ser um diagnóstico
Normalmente interpretamos a decepção apenas como perda. Contudo, ela também pode funcionar como revelação.
Quando algo desmorona e sentimos que já não existe razão para continuar, talvez a dor esteja revelando que colocamos sobre aquela coisa um peso que ela nunca poderia suportar.
Uma pessoa pode nos amar, mas não pode carregar nossa identidade.
Um emprego pode nos sustentar, mas não pode definir nosso valor.
Uma igreja pode nos acolher, mas não pode substituir nossa comunhão com Cristo.
Uma conquista pode nos alegrar, mas não pode reconciliar nossa alma com Deus.
Até mesmo as melhores dádivas se tornam cruéis quando exigimos delas o papel de redentoras. Não porque sejam ruins, mas porque são pequenas demais para ocupar o centro da existência.
A decepção, portanto, nem sempre significa que Deus nos abandonou. Em alguns momentos, ela significa que Deus está expondo aquilo que transformamos em absoluto.
Ele permite que certas estruturas tremam para nos mostrar que havíamos construído sobre elas mais do que deveríamos.
A crise não cria necessariamente nossos falsos deuses. Muitas vezes, apenas os torna visíveis.
A esperança cristã não depende de finais favoráveis
Existe uma versão superficial da esperança que diz: “Tudo ficará bem porque as circunstâncias vão melhorar.”
A esperança cristã é mais profunda.
Ela diz: “Mesmo que as circunstâncias não sigam o caminho que desejo, Cristo continuará sendo suficiente, presente e soberano.”
Paulo escreve que, justificados pela fé, temos paz com Deus por meio de Jesus Cristo. Em seguida, ele fala sobre tribulações, perseverança, experiência e esperança.
“Ora, a esperança não nos deixa decepcionados, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo.”
Romanos 5:5
Observe que Paulo não apresenta a esperança como uma fuga do sofrimento. Ele fala de uma esperança que permanece dentro dele.
A esperança bíblica não afirma que o crente será poupado de todas as noites. Ela afirma que nenhuma noite será capaz de separá-lo do amor de Deus.
Não é a certeza de que perderemos menos.
É a certeza de que, mesmo quando perdermos, não perderemos Cristo.
Não é acreditar que todos os nossos planos serão realizados.
É descansar no fato de que os propósitos de Deus não serão frustrados.
Não é pensamento positivo.
É confiança fundamentada em uma pessoa viva, crucificada, ressuscitada e soberana.
Jesus não apenas oferece esperança
Frequentemente falamos de Jesus como alguém que nos entrega recursos espirituais: paz, força, coragem, consolo e esperança.
Entretanto, o evangelho vai além.
Jesus não veio apenas entregar esperança. Ele veio tornar-se a própria esperança de seu povo.
Paulo afirma que todas as coisas foram criadas por meio de Cristo e para Cristo. Ele existe antes de tudo, sustenta todas as coisas e é o cabeça da Igreja. Nele habita toda a plenitude, e por meio de seu sangue Deus reconciliou consigo todas as coisas.
Cristo não é um acessório acrescentado a uma vida que já funciona.
Ele é o centro para o qual toda a existência foi criada.
“Cristo em vocês, a esperança da glória.”
Colossenses 1:27
A esperança cristã não está em controlar o amanhã. Está em pertencer àquele que já está no amanhã.
Não está em compreender todos os acontecimentos. Está em conhecer aquele que sustenta todas as coisas.
Não está em evitar toda perda. Está em estar unido àquele que venceu até mesmo a morte.
Por isso, a esperança do cristão não termina quando as opções humanas acabam. Muitas vezes, é exatamente ali que ela se torna mais nítida.
O perigo das esperanças horizontais
Vivemos em uma cultura que comercializa esperança.
A propaganda promete uma vida melhor através de um produto.
As redes sociais prometem relevância através da exposição.
A política promete salvação através do poder.
A espiritualidade sem cruz promete plenitude através do autoconhecimento.
A tecnologia promete superar todos os limites humanos.
O mercado vende a ideia de que nossa próxima aquisição finalmente produzirá satisfação.
Mas toda esperança construída apenas no plano horizontal possui prazo de validade.
Pessoas mudam.
Corpos envelhecem.
Empresas fecham.
Relacionamentos atravessam crises.
Governos falham.
Planos são interrompidos.
Aplausos diminuem.
O que hoje parece indispensável amanhã poderá parecer irrelevante.
Quando nossa esperança depende dessas coisas, nossa paz fica permanentemente vulnerável. Qualquer mudança externa passa a ameaçar nossa estabilidade interna.
É por isso que tantas pessoas possuem conforto, mas não descanso; informação, mas não direção; conexões, mas não comunhão; oportunidades, mas não propósito.
Elas possuem muitos meios para continuar vivendo, mas ainda procuram uma razão pela qual viver.
Quando a ansiedade denuncia o altar
A ansiedade possui muitas causas e não deve ser tratada com simplificações ou condenações. Entretanto, em certas situações, ela também pode revelar onde colocamos nossa segurança.
Aquilo que mais temos medo de perder talvez seja aquilo que começamos a acreditar que não poderíamos viver sem.
Isso exige uma investigação honesta:
Se essa oportunidade não acontecer, Deus continuará sendo bom?
Se essa pessoa não corresponder às minhas expectativas, minha identidade continuará segura em Cristo?
Se meu nome não for reconhecido, ainda acreditarei que sou conhecido pelo Pai?
Se meus planos forem interrompidos, conseguirei confiar que Deus não perdeu o controle?
Se a resposta for não, talvez nossa esperança esteja apoiada mais no presente de Deus do que no Deus que oferece o presente.
A fé madura não finge que as perdas não doem. Ela apenas se recusa a declarar que a perda possui a palavra final.
O salmista conversa com a própria alma:
“Por que você está abatida, ó minha alma? Por que se perturba dentro de mim? Espere em Deus.”
Salmos 42:5
Ele não nega seu abatimento. Também não permite que o abatimento se transforme em senhor.
Ele chama sua alma de volta para Deus.
Uma âncora fora de nós
Hebreus descreve a esperança como uma âncora da alma, segura e firme.
Uma âncora não impede que o mar se mova. Ela impede que o barco seja levado sem direção.
Da mesma forma, Cristo não prometeu uma existência sem tempestades. Ele prometeu que nenhuma tempestade teria autoridade para arrancar de suas mãos aqueles que lhe pertencem.
Nossa esperança não está firmada na intensidade de nossa fé, mas na fidelidade daquele em quem confiamos.
Há dias em que nossa confiança parece forte. Em outros, ela parece apenas um fio. Mas mesmo um fio de fé pode estar preso a um Salvador perfeitamente forte.
A segurança do cristão não está em conseguir segurar Cristo com perfeição.
Está em saber que Cristo não o soltará.
Retirando o peso das coisas
Talvez hoje seja necessário libertar algumas pessoas e circunstâncias do peso que colocamos sobre elas.
Seu cônjuge não precisa ser seu salvador.
Seus filhos não precisam ser a comprovação de que sua vida deu certo.
Seu ministério não precisa justificar sua existência.
Seu dinheiro não precisa garantir que nada ruim acontecerá.
Sua produtividade não precisa provar que você possui valor.
Sua igreja não precisa ser perfeita para que Cristo continue sendo o cabeça.
Quando Cristo volta ao centro, as coisas criadas podem retornar ao seu lugar correto.
Podemos amar sem exigir adoração.
Trabalhar sem construir nossa identidade sobre resultados.
Planejar sem imaginar que controlamos o futuro.
Servir sem depender dos aplausos.
Sofrer sem concluir que Deus desapareceu.
Esperar sem transformar desejos em direitos.
A verdadeira esperança não elimina todos os problemas. Ela impede que os problemas definam quem Deus é.
O coração que procura vida
No fundo, não estamos apenas procurando melhores circunstâncias.
Estamos procurando vida.
Vida que não dependa da opinião dos outros.
Vida que sobreviva às mudanças.
Vida que tenha sentido mesmo quando os planos falham.
Vida que não termine diante de um túmulo.
E essa vida não está escondida em uma nova oportunidade, em uma nova cidade, em um novo relacionamento ou em uma nova versão de nós mesmos.
Ela está em Cristo.
Jesus declarou:
“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.”
João 10:10
A esperança que não decepciona não é uma técnica para pensar melhor. Não é uma emoção produzida artificialmente. Não é a expectativa de que tudo acontecerá conforme nossos desejos.
É uma pessoa.
Seu nome é Jesus.
Hoje, talvez você não precise aumentar suas expectativas sobre o futuro. Talvez precise transferir sua esperança para aquele que permanece o mesmo quando todo o resto muda.
Não entregue ao amanhã o poder de determinar sua paz.
Não entregue às pessoas o poder de definir seu valor.
Não entregue às circunstâncias o poder de interpretar o caráter de Deus.
Coloque seu coração nas mãos de Cristo.
Ele não promete realizar todos os sonhos que criamos, mas promete conduzir-nos a uma glória muito maior do que poderíamos imaginar.
As coisas que esperamos podem falhar.
Os planos que construímos podem mudar.
As pessoas que amamos podem nos decepcionar.
Mas aquele que morreu, ressuscitou e reina não decepcionará aqueles que nele confiam.
A esperança não é encontrar uma vida em que nada se perca. É descobrir que, tendo Cristo, nem mesmo as perdas podem nos deixar sem futuro.