Desprezo Religioso

Quando a arrogância intelectual nos impede de encontrar aquilo que mais procuramos

Há pessoas que rejeitam Jesus depois de estudá-lo profundamente. Mas há muitas outras que o rejeitam antes mesmo de ouvi-lo.

Não examinaram suas palavras. Não consideraram suas reivindicações. Não observaram a coerência de sua vida, a força de sua morte ou o significado de sua ressurreição. Apenas aprenderam a revirar os olhos quando alguém menciona o cristianismo.

Para elas, Jesus já foi classificado.

Antigo demais.
Religioso demais.
Conservador demais.
Simples demais para um mundo sofisticado.

Foi exatamente assim que Natanael reagiu quando Filipe lhe contou que havia encontrado aquele sobre quem Moisés e os profetas escreveram:

“Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?”
João 1.46

Nazaré não era apenas uma localização geográfica. Era um rótulo social.

Era o lugar de onde pessoas importantes supostamente não vinham. O endereço que desqualificava alguém antes mesmo de sua apresentação. A origem que dispensava qualquer análise posterior.

Natanael não refutou Jesus.

Ele desprezou Nazaré.

E talvez esse seja um dos maiores problemas espirituais da nossa geração: não estamos rejeitando necessariamente as respostas; estamos rejeitando os lugares de onde elas vêm.

O preconceito também usa linguagem inteligente

O desprezo raramente se apresenta dizendo: “Sou preconceituoso”.

Normalmente ele se veste de discernimento, cultura, consciência crítica e sofisticação. Não argumenta; ironiza. Não investiga; ridiculariza. Não escuta; classifica.

O desprezo é uma forma preguiçosa de superioridade.

Quando não queremos enfrentar uma ideia, podemos simplesmente diminuir quem a apresenta. Em vez de perguntar se algo é verdadeiro, perguntamos se aquilo é aceito pelo grupo ao qual desejamos pertencer.

A verdade, então, deixa de ser examinada por seu conteúdo e passa a ser julgada por seu endereço.

É de Nazaré?
É evangélico?
É tradicional?
É antigo?
Está na Bíblia?

Então, para muitos, já não pode ser relevante.

Mas a Bíblia revela um Deus que frequentemente coloca seus maiores tesouros nos lugares que o orgulho humano despreza.

Ele escolhe Abel, não Caim.

Escolhe Isaque, não Ismael.

Escolhe Jacó, não Esaú.

Escolhe Davi, o filho que nem sequer foi chamado para a reunião familiar quando Samuel chegou à casa de Jessé.

Escolhe Belém, uma pequena cidade, para o nascimento do Messias.

Escolhe uma manjedoura, não um palácio.

Escolhe pescadores, não celebridades religiosas.

Escolhe a cruz, instrumento de vergonha, para revelar sua glória.

Deus parece ter prazer em frustrar nossas hierarquias.

“Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes.”
1Coríntios 1.27

O problema não é que Deus esconda a verdade. O problema é que, muitas vezes, ele a coloca em lugares onde nosso orgulho não deseja procurar.

O cristianismo continua sendo de Nazaré

Nossa cultura gosta de algumas consequências do cristianismo, mas se constrange diante de sua origem.

Gostamos de falar sobre dignidade humana, cuidado com os vulneráveis, justiça, igualdade, reconciliação e amor aos inimigos. Porém, frequentemente tentamos separar esses valores da história que lhes deu forma.

Queremos os frutos, mas desprezamos a raiz.

Defendemos que toda vida possui valor, mas hesitamos diante da afirmação de que o ser humano foi criado à imagem de Deus — Gênesis 1.26,27.

Aplaudimos o amor aos inimigos, mas descartamos aquele que ordenou:

“Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.”
Mateus 5.44

Desejamos uma sociedade que cuide dos fracos, mas rejeitamos o evangelho de um Deus que se fez fraco para nos salvar.

A ética cristã não surgiu de uma vaga sensação de bondade. Ela nasceu da cruz.

O cristão não serve porque acredita ser moralmente superior. Serve porque foi alcançado por alguém infinitamente superior que se tornou servo.

Não perdoa porque o pecado seja irrelevante. Perdoa porque sabe quanto custou seu próprio perdão.

Não acolhe o desprezado para parecer inclusivo. Acolhe porque Cristo o acolheu quando ele próprio era espiritualmente indigno.

“Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores.”
Romanos 5.8

Retirar Cristo da ética cristã é como cortar uma árvore pela raiz e esperar que ela continue produzindo frutos indefinidamente.

Talvez permaneça verde por algum tempo.

Mas já começou a morrer.

Jesus não trouxe apenas respostas

O prólogo do Evangelho de João apresenta uma declaração perturbadora:

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”
João 1.1

João utiliza a palavra Logos, associada à razão, à ordem e ao sentido do universo. Contudo, ele faz algo revolucionário: afirma que o sentido último da existência não é apenas uma ideia, uma teoria, uma energia ou um sistema filosófico.

O sentido tornou-se carne.

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.”
João 1.14

O cristianismo não diz apenas que Jesus possui respostas para os grandes questionamentos.

Ele afirma que Jesus é a resposta.

Isso muda tudo.

Porque ideias podem ser estudadas à distância. Uma pessoa precisa ser encontrada.

Um sistema pode ser analisado sem envolvimento. Um encontro verdadeiro exige posicionamento.

Jesus não veio oferecer um método para que pessoas suficientemente disciplinadas subissem até Deus. Ele veio anunciar que Deus desceu até pessoas incapazes de chegar a ele.

Esse é o escândalo do evangelho.

As religiões humanas, as filosofias de aperfeiçoamento e até a espiritualidade de desempenho costumam dizer:

“Suba.”

“Evolua.”

“Supere-se.”

“Encontre sua melhor versão.”

“Alcance um nível superior de consciência.”

O evangelho diz:

“O Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido.”
Lucas 19.10

Não é o homem encontrando uma escada para chegar ao céu.

É Deus atravessando a distância para encontrar o homem.

O cético também pode estar com sede

Natanael começou com sarcasmo, mas decidiu acompanhar Filipe.

Isso revela algo importante.

Muitas vezes, por trás de uma rejeição barulhenta existe uma busca silenciosa.

Há pessoas que fazem piadas sobre a fé porque não querem admitir que possuem perguntas que sua visão de mundo ainda não respondeu. O desprezo torna-se uma armadura contra a vulnerabilidade.

É mais confortável dizer que tudo é absurdo do que confessar:

“Não sei por que estou aqui.”

“Não sei de onde vem meu valor.”

“Não sei como justificar minha indignação diante do mal.”

“Não sei por que continuo sentindo que a vida deveria ter um propósito.”

“Não sei por que o sucesso não conseguiu silenciar meu vazio.”

O ceticismo pode ser honesto. Mas também pode ser uma estratégia de autoproteção.

Há uma diferença entre questionar porque desejamos encontrar a verdade e questionar porque não queremos ser encontrados por ela.

Jesus não humilhou Natanael por suas dúvidas. Também não confirmou seu preconceito. Ele o recebeu, revelou que o conhecia e o convidou a enxergar além das primeiras impressões.

Cristo não se intimida com perguntas sinceras.

Ele confronta, porém, a arrogância que usa perguntas apenas como esconderijo.

O perigo de duvidar de tudo

Nossa geração transformou a dúvida em sinal automático de inteligência.

Crer seria ingenuidade. Desconfiar seria maturidade.

Mas duvidar de tudo não é inteligência; é paralisia.

Nenhuma pessoa consegue viver sem acreditar em alguma coisa. Até aquele que afirma não possuir fé deposita confiança em determinados pressupostos sobre razão, moralidade, liberdade, identidade e realidade.

A questão nunca é simplesmente:

“Você tem fé?”

A verdadeira questão é:

“Em que você colocou sua fé?”

Alguns confiam no dinheiro.

Outros, na ciência como explicação total da existência.

Outros, na própria percepção.

Outros, no consenso cultural.

Outros, na aprovação social.

Outros, na ideia de que cada pessoa deve construir sua própria verdade.

Mas até o ceticismo precisa de fundamentos. A pessoa que rejeita toda verdade absoluta normalmente deseja que sua própria rejeição seja aceita como absolutamente verdadeira.

Jesus não pede uma fé sem evidências. Natanael foi convidado a se aproximar, observar e descobrir.

Filipe não apresentou uma discussão interminável. Disse apenas:

“Vem e vê.”
João 1.46

O convite cristão não é desligar o cérebro.

É aproximar-se o suficiente para examinar Jesus sem a distorção do desprezo.

Leia suas palavras.

Observe como ele trata poderosos e marginalizados.

Considere suas reivindicações.

Examine a cruz.

Enfrente a ressurreição.

Mas não rejeite o homem de Nazaré apenas porque aprendeu que pessoas sofisticadas devem rir dele.

Jesus conhece o lugar onde ninguém nos viu

Quando Natanael se aproxima, Jesus declara:

“Eis um verdadeiro israelita, em quem não há falsidade!”
João 1.47

Surpreso, ele pergunta:

“De onde me conheces?”

Jesus responde:

“Antes de Filipe te chamar, eu te vi quando estavas debaixo da figueira.”
João 1.48

Não sabemos o que aconteceu debaixo daquela figueira.

Talvez fosse um momento de oração. Talvez uma crise. Talvez uma pergunta silenciosa. Talvez um episódio tão íntimo que apenas Natanael compreendeu o peso da resposta.

O texto não explica porque não precisamos conhecer o segredo.

Precisamos compreender o princípio:

Jesus conhece aquilo que ninguém mais viu.

Ele conhece a dúvida escondida sob a ironia.

A ferida escondida sob a agressividade.

O medo escondido sob a autossuficiência.

A carência escondida sob a ambição.

A solidão escondida sob a exposição.

O pecado escondido sob a religiosidade.

Cristo não conhece apenas nossa imagem pública. Ele vê nossa figueira.

E o mais desconcertante é que, conhecendo-nos completamente, ele ainda nos chama.

Não somos amados porque conseguimos esconder nossas contradições. Somos amados por aquele diante de quem não existe esconderijo.

“Senhor, tu me sondas e me conheces.”
Salmos 139.1

Uma fé baseada apenas em experiências também é frágil

Depois da revelação sobre a figueira, Natanael responde rapidamente:

“Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel.”
João 1.49

Poucos instantes antes, ele desprezava Jesus. Agora faz uma confissão extraordinária.

Mas Jesus não permite que Natanael construa sua fé apenas sobre o impacto daquele momento.

Em outras palavras, Cristo parece dizer:

“Você ainda verá muito mais.”

Isso também confronta um problema contemporâneo. Algumas pessoas rejeitam Jesus sem examiná-lo; outras o aceitam depressa demais, apenas porque tiveram uma experiência emocional.

Mas a fé cristã não deve ser construída somente sobre arrepios, ambientes, músicas, coincidências ou sensações.

Experiências podem despertar nossa atenção, mas precisam nos conduzir à verdade.

Cristo não é um produto destinado a atender necessidades emocionais. Ele não existe para melhorar nossa autoestima, confirmar nossos planos ou aliviar temporariamente nossa ansiedade.

Não seguimos Jesus apenas porque ele “funciona”.

Seguimos porque ele é verdadeiro.

Uma fé reduzida à utilidade abandonará Cristo assim que a obediência se tornar dolorosa.

A ponte que não poderíamos construir

Jesus conclui o encontro dizendo:

“Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem.”
João 1.51

A imagem remete ao sonho de Jacó em Gênesis 28. Ele viu uma escada ligando a terra ao céu, enquanto anjos subiam e desciam.

Jesus toma aquela imagem e a aplica a si mesmo.

Ele não diz: “Eu mostrarei a escada”.

Ele afirma, em essência:

“Eu sou a ligação.”

Jesus é o encontro entre o céu e a terra.

Entre santidade e pecadores.

Entre justiça e misericórdia.

Entre o Deus invisível e a humanidade perdida.

Entre aquilo que somos e aquilo que fomos criados para ser.

A religião humana tenta construir uma torre para alcançar Deus. O evangelho anuncia que Deus desceu para nos resgatar.

Na cruz, Cristo ocupou nosso lugar de separação para nos conduzir à presença do Pai.

“Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus.”
1Timóteo 2.5

Não precisamos criar nosso próprio caminho.

Precisamos reconhecer aquele que disse:

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.”
João 14.6

Talvez o tesouro esteja em Nazaré

Natanael procurava respostas grandiosas, mas não imaginava encontrá-las em um homem vindo de um lugar desprezado.

Nós também criamos expectativas sobre onde Deus deveria se revelar.

Esperamos encontrá-lo no extraordinário, mas ele fala nas Escrituras.

Esperamos o espetáculo, mas ele se manifesta na obediência.

Esperamos uma novidade, mas ele nos chama de volta à cruz.

Esperamos uma experiência que confirme nossos desejos, mas ele oferece uma verdade que reorganiza nossa vida.

Talvez você tenha rejeitado Jesus não porque o examinou, mas porque o associou às falhas de pessoas religiosas.

Talvez tenha confundido Cristo com igrejas que o representaram mal.

Talvez conheça versões superficiais do cristianismo, mas nunca tenha enfrentado seriamente o Cristo dos Evangelhos.

Talvez esteja tão acostumado a revirar os olhos que já não percebe o quanto seu desprezo limita sua busca.

Filipe ainda oferece o mesmo convite:

Venha e veja.

Não venha para confirmar preconceitos.

Não venha apenas para resolver um problema imediato.

Não venha procurando uma técnica de autoaperfeiçoamento.

Venha disposto a encontrar alguém que já o viu debaixo da figueira.

Você poderá descobrir que o homem de Nazaré não é apenas mais uma voz em meio às respostas humanas.

Ele é o Verbo que se fez carne.

Não é apenas um mestre indicando a direção.

Ele é o Caminho.

Não é apenas alguém oferecendo uma escada para você subir.

Ele próprio desceu para buscá-lo.

E, quando finalmente encontramos Jesus, percebemos que aquilo que procurávamos era muito menor do que aquilo que ele veio oferecer.

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